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Na página "Por Outros", um soneto de Lucas Puntel Carrasco.


(Pra não confundir mais ninguém - que é quase do meu feitio -, os versos abaixo são meus, os de Lucas estão na página indicada)
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Autoridade de formiga,
sou império quando escrevo.
Só sendo esta carne parva:
ter que comer me desautoriza.


 
(É o céu lá de Uberaba, mais um céu que uma cidade, pela doce fotógrafa e designer Priscila Sabino)

bestaprosa

Fui preferida pelas dinâmicas do mundo:
sou cegamente feliz quando espreguiço.
Os pertences do mundo me apropriam
pra eu ser filha de santos.
Minha mãe leciona pedras
e tem superfície passível de ocasiões
Meu pai tem quilômetros nos olhos
e é formado em coisas.

hojedezenovedeabril notas

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Estes objetos se falassem seriam
(pobres coitados!) menos felizes
Vê que o mesmo objeto quebrado
ainda é, se quebrado, o suficiente:
Eu sou um objeto quebrado.

Infelizes das coisas que falam sem poder se quebrar.





Escolhida por imagens e ritmos
Sobremesas de pedra sabão me galopam.

(Chagal, porque é preferido de Betina também)

Dez tijolos caseiros

I.
As coisas lá em casa
nós tendenciamos quando novas
Depois de uma semana velhas lá em casa
nós as santificamos
Ficam sem notadas quando vistas.

II.
Lá em casa filho dos outros
é igual a gente grande
Fica acanhado e não voa

III.
Velório em casa de gente
já fomos na casa dos vinte
Lá em casa um nunca teve
Porque em casa nossa
gente é distraída.

IV.
Quando amanhece lá em casa
são quaisquer horas em outras casas
Porque tem-se mania de lá em casa
Não se saber olhar relógios.

V.
Lá em casa quando morrem
os bichos levam a Deus um pedido
de que não lhes troque as partes mais bonitas
Depois sonhamos com homens lustrosos de pêlo
falando de quintal nas almas.

VI.
Queria me desfazer das palavras
mas fui treinada pra amante
Em casa nossa não se usam letras
Lá não temos idades.

VII.
Lá em casa percorremos quilômetros
Nós trapaceamos
pra morarmos juntos.

VIII.
A razão de todas as coisas
lá em casa nós somos sabidos
Adestramos os nossos hábeis
focinhos usando ternura.

IX.
Cozinha-se lá em casa
à medida em que se vai comendo
Nas secas não se apanelam
comemos desejos crus.

X.
Tinha-se o vizinho com gaiolas
que em meu quarto soltou os canários
Disse que pra que fossem livres
e infinitamente breves.



Na página "Por Outros", o carinho lançado pela brilhante amiga Márcia Shoo.




(Chagal)

Um homem atravessado por um rio plangia águas salgadas.

Mais guéris.

- Ela sofria de orgulho, coitada!
- Coitada! Sofria!
- Tinha pena até da fome!
- Tinha! Coitada! Pena...
- Tinha pena das doenças de morte,
- Das pobres diabas!
- que precisavam da gente pra ter o século. Quis salvar Getúlio.
- Morria de dó.
- Depois teve câncer. Começou num lugar, terminou um mapa.
- Tinha pena da morte, a miserável.
- Nem dela se espantou, já tinham tido uma com a outra em outras vezes.
- Saiu da doença a pé.
- Foi pra casa, tadinha. Toda de branco, toda orgulhosa.
- Não fala nem de vizinho, não se interessa, nem medo tem.
- Essa vive tanto é de raiva.
- Essa vai virar santa. De orgulho, coitada.