Nada em Por Outros

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Póstumo II
Da série de poemas livres iniciada em minhas mortes: Póstumos.

Dos meus pertences todos não havia
um sequer sem maior desventura
(agora do plácido que me figura)
de tê-los meus enquanto os via

Por sidos de carnes os meus pertences
e ossos, os três filhos guardados,
foram esses meus dedos alados
de outrora os meus dedos tangentes.

Foram novos e estão sozinhos
o quanto não quiseram libertos
umbigos das minhas correntes

Estão velhos quando desperto
das minhas ilusões clementes
de comer minhoca e fazer ninhos.

(Caravaggio, por causa do Leandro)


 
[Saiu a Edição 40 das Escritoras Suicidas com os temas: um verso de Ana Cristina César / mesa de bar / jardineiros, flores, jardim. Está linda, linda!]

Jacim


,Sobretudo, quando ouvia
dos boleros, o 'boneca cobiçada'
e temia ter identidade de música
entidade de cadeira de balanço
tricotava suas rugas no algodão
entidade de ouvir boleros
na idade que tinha. Pensava
que devia todo homem
poder se parecer com barbante.
Dez anos depois do seu pensamento,
porque formavam-se os dez anos de Jacim
o neto mais último, da filha mais nova
e que não mais faria filho pra não ter de diferença
dez anos entre irmãos
Dez anos depois de pensar nas semelhanças
que deveriam os homens poder ter com as coisas
pra que fossem mais sabidos
pois se pudessem se comparar a um garfo
entenderia mais o homem
de ser homem
e o garfo de ser garfo
mesmo podendo um cumprir o outro quando algum
do outro lhe faltasse;
passou a observar com espanto e descobrimento
como se ali houvesse a nascer
uma terra nova e a promessa de conserto dos homens
que dali brotassem
passou a observar com mais descobrimento que espanto
que o neto Jacim, o mais último, parecia poder
se parecer com barbante.

O menino não podendo desfazer
da responsabilidade de poder
se parecer com um barbante, passou a poder
se parecer com o que pudesse ter sido a mais primeira
das coisas que seriam novas dali em diante:
o primeiro homem dos que nasceriam certos depois.

Tendo tal fardo de primogenitura à nova humanidade
e cônscio do que deveria parecer como exemplo
o menino que era filho de tamanha responsabilidade
e o único que havia com feição tão apropriada
pra se chamar Jacim,
não podia deixar de sentar-se ao pé do pé de manga
e esperar que começassem a nascer os de então prometida ninhada.
Ao esperar, sem que nada o pudesse lhe fazer pensamento
e agraciado por nada ao pé do pé de manga
estar pensando, pois não haveria diante da manga
e da circunstância, qualquer utilidade
que pudesse dar a um teimoso pensamento.

Restou que como guardião de certa nova
humanidade
chupasse a manga. E incumbido
de tamanha orientação, determinou-se
gozando-a.
Na carne amarela sumarenta
escondia tão fundo os dentes
que temia não encontrá-los:
como um cão com o osso, o seu osso eram seus dentes.
Nem deixava gota escorrer da fruta
e foi sua primeira experiência sexual.
Agitou sua língua até o caroço da manga
alguns pedaços engolia sem mastigar
e gostou sentir a carícia no pé da língua e no palato.

O menino encarregado de tal orientação
como também gostava de bolero
depois de colocar a manga sobre o acontecimento
de sua primeira ereção
como não queria se atrapalhar entre as coisas
teve um mais primeiro pensamento
de que não queria mais se parecer com barbante
e que devia de se assemelhar era com um peixe
e poder parecer rio.



(Caravaggio)

Tanto em abril quanto em maio.

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Poema de aniversário à minha mãe
(Mesmo que sendo em dezenove de abril, traz a demora ao mesmo domingo de maio, já enviado em postal.)

Éramos em uma casa
nós uma casca
um convés
Sobre os mares de agora
éramos ante os arremessos
da linha do tempo – nós o viés
As chuvas nós éramos
sobre até nós mesmos
sobre nós principalmente.
Tempestades em nós resolviam-se
e resolvíamos os tudos, os todos
nós moldamos nossas panelas, ordenamos colheres
Fomos feitos de pau
E tínhamos varandas nos peitos
Nós construíamos as nossas caras
e dali o mundo se generalizava
Os gêneros foram nossas pernas e por onde iam.
Fomos a mais generosa seca
e ríamos o sertão
nós o sertão.
Eu sou seu quintal e seus guardados
Sou integralmente seu colo para minha cabeça
Os nossos corpos são nossa terra
Nossas falas os nossos bichos
E nessas terras nem sequer nos enterrariam
as terras todas, todo chão, toda desordem
que tomem paz, que se estilhassem
tudo que é morto, que será vivo
É que se enterrarão em nós
nós que fomos criados pra não morrer de nada.


(Manet)

Poema de casamento inesperado

Dali, donde chamavam-se todas
as catástrofes de naturais
donde chamavam ruídos
àqueles de poucos anos
Porque dali se saíam sem mira
as contas dos meses dos anos
passados das contas doutrano
Dali, donde chamava-se toda
maneira de cor
e toda cor se chamava de ronco
Dali donde se roncava o passar das
marchas
nem ao menos vistas dali
se passavam.
Ali que se vulgarmente chamava
de coração o músculo
dali daquele músculo chamavam-se
todas as almas de colheita
e toda fartura chamava-se
d'alma.

Dali, daquele vulgarmente coração chamado
de músculo
saiu uma carreta de velhas ferragens
rangida e farpada e de poucas capacidades
pra se pesar sobre ela
atravessou todo revestimento de osso
e pele. E pelas fossas torácicas trouxe
à frente do que se podia ver então
donde então se via
que dali do músculo saíra uma carreta de gente e malas
carregada
tanto por gente carregadas as malas
quanto por elas as gentes carregadas.
Dali, donde guardava as coleções
de preferências e figuras de nomes
quando dali não se tinha mais nome
quando músculo não fala.
Dali donde tudo se vinha, donde nada saía de eixo
donde só se saía suspirado ou tangente
dali se partiu uma carreta, dum coração.

A carreta saída contida de gente com malas
de gente com tipos
estacionara em qualquer folhado chão
dum músculo vulgarmente chamado de outono
dum outono vulgarmente chamado de carreta.
Da carreta saíra uma gente em forma de mulher
vulgarmente chamada de sua
E todas as gentes sobre a carreta desbarrancaram
ribanceiras não vistas
Enquanto a sua vulgarmente chamada de mulher
postara-se em sua respectiva desatenção
de deixar a carreta deslizar depois dela
de deixar que a mulher não lhe explicasse
dali o ocorrido
e o tomasse a cama, as cópias dos documentos
as cerimônias, os peixes, as panelas
a casa.

D'então a mulher passara a chamar-se Augusta
pra chamar-se como chamam-se as coisas partidas
de músculos proprícios.

D'então ele passara a não se chamar de nome
porque virara costela, cotovelo, encosta, riacho
e passara a não saber mais o nome de nada
que partisse senão da carreta
ou de músculo propício.

Ali, passaram-se a transcrever os barulhos de seus peitos
porque era preciso sentarem a cabeça sobre o colo
um do outro o colo
para capitularem rigorosas partituras
porque dali era preciso não mais
se ter pronde ir
nunca mais se ter casa
nunca mais ter nem coragem
pra se traduzir ruídos
um do outro dos seus colos
era preciso ser covarde para tanto
e portanto omissos de mundo
molduras de homens
bordados de cabelos vivos
era preciso ter além das contas
passadas doutro ano
ter devidos os fiados
pra se poder autorizar
que não passava tudo de salvo.
Salvaram-se soldados e famílias
em seus colos.

Dali donde as coisas se entornavam
era seu peito
onde ele tudo amanhecia
cajus amanheciam nele
no peito
Dali, donde nascera Augusta
não da costela,
mas dum músculo vulgarmente chamado
de músculo.


Canonização de Santo Antonio de Lisboa.