Poema de casamento inesperado

Dali, donde chamavam-se todas
as catástrofes de naturais
donde chamavam ruídos
àqueles de poucos anos
Porque dali se saíam sem mira
as contas dos meses dos anos
passados das contas doutrano
Dali, donde chamava-se toda
maneira de cor
e toda cor se chamava de ronco
Dali donde se roncava o passar das
marchas
nem ao menos vistas dali
se passavam.
Ali que se vulgarmente chamava
de coração o músculo
dali daquele músculo chamavam-se
todas as almas de colheita
e toda fartura chamava-se
d'alma.

Dali, daquele vulgarmente coração chamado
de músculo
saiu uma carreta de velhas ferragens
rangida e farpada e de poucas capacidades
pra se pesar sobre ela
atravessou todo revestimento de osso
e pele. E pelas fossas torácicas trouxe
à frente do que se podia ver então
donde então se via
que dali do músculo saíra uma carreta de gente e malas
carregada
tanto por gente carregadas as malas
quanto por elas as gentes carregadas.
Dali, donde guardava as coleções
de preferências e figuras de nomes
quando dali não se tinha mais nome
quando músculo não fala.
Dali donde tudo se vinha, donde nada saía de eixo
donde só se saía suspirado ou tangente
dali se partiu uma carreta, dum coração.

A carreta saída contida de gente com malas
de gente com tipos
estacionara em qualquer folhado chão
dum músculo vulgarmente chamado de outono
dum outono vulgarmente chamado de carreta.
Da carreta saíra uma gente em forma de mulher
vulgarmente chamada de sua
E todas as gentes sobre a carreta desbarrancaram
ribanceiras não vistas
Enquanto a sua vulgarmente chamada de mulher
postara-se em sua respectiva desatenção
de deixar a carreta deslizar depois dela
de deixar que a mulher não lhe explicasse
dali o ocorrido
e o tomasse a cama, as cópias dos documentos
as cerimônias, os peixes, as panelas
a casa.

D'então a mulher passara a chamar-se Augusta
pra chamar-se como chamam-se as coisas partidas
de músculos proprícios.

D'então ele passara a não se chamar de nome
porque virara costela, cotovelo, encosta, riacho
e passara a não saber mais o nome de nada
que partisse senão da carreta
ou de músculo propício.

Ali, passaram-se a transcrever os barulhos de seus peitos
porque era preciso sentarem a cabeça sobre o colo
um do outro o colo
para capitularem rigorosas partituras
porque dali era preciso não mais
se ter pronde ir
nunca mais se ter casa
nunca mais ter nem coragem
pra se traduzir ruídos
um do outro dos seus colos
era preciso ser covarde para tanto
e portanto omissos de mundo
molduras de homens
bordados de cabelos vivos
era preciso ter além das contas
passadas doutro ano
ter devidos os fiados
pra se poder autorizar
que não passava tudo de salvo.
Salvaram-se soldados e famílias
em seus colos.

Dali donde as coisas se entornavam
era seu peito
onde ele tudo amanhecia
cajus amanheciam nele
no peito
Dali, donde nascera Augusta
não da costela,
mas dum músculo vulgarmente chamado
de músculo.


Canonização de Santo Antonio de Lisboa.