Tanto em abril quanto em maio.

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Poema de aniversário à minha mãe
(Mesmo que sendo em dezenove de abril, traz a demora ao mesmo domingo de maio, já enviado em postal.)

Éramos em uma casa
nós uma casca
um convés
Sobre os mares de agora
éramos ante os arremessos
da linha do tempo – nós o viés
As chuvas nós éramos
sobre até nós mesmos
sobre nós principalmente.
Tempestades em nós resolviam-se
e resolvíamos os tudos, os todos
nós moldamos nossas panelas, ordenamos colheres
Fomos feitos de pau
E tínhamos varandas nos peitos
Nós construíamos as nossas caras
e dali o mundo se generalizava
Os gêneros foram nossas pernas e por onde iam.
Fomos a mais generosa seca
e ríamos o sertão
nós o sertão.
Eu sou seu quintal e seus guardados
Sou integralmente seu colo para minha cabeça
Os nossos corpos são nossa terra
Nossas falas os nossos bichos
E nessas terras nem sequer nos enterrariam
as terras todas, todo chão, toda desordem
que tomem paz, que se estilhassem
tudo que é morto, que será vivo
É que se enterrarão em nós
nós que fomos criados pra não morrer de nada.


(Manet)