A ponte

Para Gerana Damulakis e seu livro O Rio e a Ponte.

Eu sou a ponte
suspensa e inevitável
eu sou essa coisa descontinuada e dura
afixada nas pontas com a barriga tocando o vão
O Rio são meus olhos
ou como meus olhos o são
disperso e inevitável
como os filhos.
a concentração do Rio em seu ofício me apavora
como as coisas ininterruptas
e as que menos se movem
O Rio é uma série de coisas sem rotação
sem que deixe tempo e tato
ou mesmo o vão imoto onde me atravessou.
Em verdade o Rio está dizível
e cada vez mais claro em meu arco
enquanto corre e se vai enjambrado
está ainda voltado para dentro
como meus olhos
como os filhos
ou como o Rio os são.


Monet

Cotovelo

Um estreito passou a correr
em minha veia
no lado de dentro, havia cheiro forte, do braço
houve uma propensão no meu índice de umidade
a ser verde.
As cores todas eu fiquei
enquanto alguma ocasião me espreitava os pés
eram minérios e os dedos cravados ao mundo
houve uma propensão em minh'alma
a ser a carne do tomate.

Aos quarenta e três anos eu nasci
sob o nome de Rosa.


[publicado na Edição 40 das Escritoras Suicidas]


Marc Chagal

Prece do poema:

Prestes a não mais temer
nada
temo tornar-me o tempo que me transborda.
Peço, Senhor, que me dê do tempo
a origem das carícias que aprecio:
deixe-me as almas sobre o colo
deixe-me às mãos renunciar
de forma que os cabelos se afaguem
pelos quentes atrativos de meus olhos
seus quentes clamores como são quentes os colos
deixe-me a maternidade sobre os pedaços incorruptíveis
de natureza inanimada.
E deixe-me, por fim, Pai de minhas cordas vivas,
a corrupção das cores
a corrupção dos tempos
e o mármore dos pensamentos
numa pequena cesta disposta sobre as mãos
de quem a mim possa deitar
a alma sobre o colo.