Folia

Possuem os nomes às coisas
(devemos não ser diluídos)
O homem está dentro do mundo
e dentro dum corpo o teu sítio
- os meus olhos dos teus adormecem -
tu e estes objetos coloridos
um balão, um tear, um talher
vós sois algo tão parecido
neste mesmo jarro de parentes
só essa coisa de barro
(este rancho de nossas almas)
provisionam impávido abrigo:
dá este instante ao sossego
tu que estás dentro agora do tudo
percebeste a fortuna em teu peito?
De ti, dentro, espreguiçava o mundo
num infinito menor instante possível.



(Anita Malfatti)

A todo instante existe a fortuna
de ter o instante existido.

Infância.

Em "Por Outros", a infância de Marina Rosário. Versos para a confessa sinceridade de seus espaços entre as coisas. Sim, era em confessionário quando leu-me o poema, rosada, descuidada. Lembra-me daquele rio voltado para dentro e leva-me à construção de uma dura maternidade: volte-se para dentro, volte-se para fora, volte-se para perto, volte-se para longe. Creio que qualquer aflição, como aqui as deste tipo, sejam perfeitamente mutáveis, até a leves penas, e que tal busca pela infância latente seja uma ansiedade descabida. Na verdade, não quero este momento a remar contra. Claro que me foi dado o ensejo e devo entregar-me à gravidade disto: recordar a infância e tolerar a ternura de suas imagens agudas, de suas cores perfeitas, de suas pontas aparadas.