Outro convívio das coisas

Para Otto M., em resposta a seu texto "Voyeur: tarde" (e ainda sobre aquele meu pedido)*

Não é um teu estado perene
o que, sim, essas fagulhas terminam
há de haver outra casa em silêncio
e outra casa vadia, outra em incêndio
o que, sim, essas fagulhas terminam
eriçando o flanar doutros olhos onde,
sim, puderem flanar os teus olhos
haverá outras casas e vilas.

Vê donde percorre de sopros passível
novo tempo das cercanias
estas, sim, de estado perene
que, sim, vem e que vai e se fica
(havia uma pequena vida acontecendo ali):
havia dois meninos de botinas
enlamaçadas, as barranqueiras, as suas vidas
galgadas, e os cavalos se iam, os cavalos se iam.
Havia um menino sem pêlos
seus, e os matos crescentes, os fios
da cerca interessavam-no entretanto
e o tempo se ia, os tempos se iam.
Havia um veleiro, um lençol grande
no mastro, a tarde já tarde enlanguescia
e o vento se ia, o vento se ia.

Havia uma pequena vida acontecendo ali
os teus braços, estica-os elastece-os alcança-os,
namasque, das estâncias últimas, as tuas mãos
cercearem crivas de infinito
as tuas linhas.

Não é um teu estado perene
há de haver gamas, sumas, suores
donde, sim, possam liquefazer teus olhos
os teus olhos, alcança-os,
as tuas linhas.



Kandinsky



Na página Por Outros, "O QUE FOR MÓVEL ENTRE NÓS", da Carla Diacov, que é geringonça formada, filhote de trator e mãe de centelhas, centenas delas. Até onde posso recordar, foi o primeiro texto dela que li. Depois, vieram barrancos derramando, bolas de terra crescentes, pequeno colosso. Pra quem já nota a Betina como voraz possuidora de mil blogs, atentem para, então, onde inúmeros sítios de Carla proclamam. São dela o nósosnós, o OINC, os OVOS e o, enfim, Carla Diacov. Todos já inseridos em "visitem também". E já basta.

* Quanto ao "outro convívio das coisas", vem alargar meu aprisionamento em determinado trecho do conto "Voyeur: tarde", de Otto M. O trecho em questão é o:

"[...] e, conforme os mares se abriam, entrevia-se um lacaio escanifrado e suado galgando com seus pés descalços a terra molhada e viçosa da estradinha que serpenteava aquela planície: carregava o nobre circunspeto em um jinriquixá. Havia uma pequena vida acontecendo ali, e ninguém se dava conta."

E vem, também, reiterar meu pedido a ele. Este, as novas terras, os seus tempos, ele sabe qual é.


[O título "outro convívio das coisas" é emprestado, quase emprestado, do texto de Rachel Flegler, em Convívio das Coisas.]

A parede, a sua vida

Para Marina.

Devo-lhe ser este novembro custoso
como custaram-lhe as ingratas paciências
e o mês de agosto, não de menos, quando
tolos os meses se antecediam uns aos outros
antes embebia outras datas num só rolo
trouxe até a me pintar toda parede, e a parede
que afaga a colorir seus outros dedos
E suas datas mais próximas apetecem ou descansam
aos arredores da casa sua
a sua vida é besta, a sua vida é besta
e eu deitei-me sob ela
aos arredores da casa sua
a sua vida é besta, a sua vida resvala
escorrendo-me à cabeça
entornando pelas eiras
Se correr à calha a esta altura
a sua vida me aproveita, eu já sou outra parede
a minha vida é besta, a minha vida é besta.



(Marc Chagall)

São mediterrâneos quaisquer olhos como os meus

São mediterrâneos quaisquer olhos
como os meus
Entre as porções de terra do meu rosto
Estão molhados onde escorrem
como o Deus
Quanto guturais desde a margem primeira
dessa face rústica e os corpos bruscos
e os céus sustentados por meu dorso
quão molhado por meus olhos o meu dorso.

Havia tempo desde meu corpo:
há quanto meus olhos estão físicos
numa fita pendurada do meu osso.

Devem ser essas instâncias tal estado
surtou-se uma alegria gorda
pelas paredes da minha boca
está eterna esta tarde tão pequena
pode o mundo envelhecer antes da tarde

Que só tenho essa vida miúda
e não anoiteço
que só tenho esse peito miúdo
e a tarde larga
que só conheço este estado poente
e desconheço.



(Edouard Manet)