Pela boca, dutos e águas.

São largas as margens e sondas
perseguem as vias de terra, que sou
este mundo agora, vê.

Há de ser um revel passarinho
à volúpia de minha mansidão
onde cantar-me existe o vôo
o meu bico de cantos maciços

eu gorda de almas que entram e dormem
há de ser um revel passarinho
e grita-me a emagrecer-me

Pois está mesmo essa vida como água
são largas as margens em minha boca e entram
pela gruta, pelos dentes, enxurradas

a minha boca como pedra há de rir-se
há de rir-se minha boca inacabada.



Van Gogh

Outra vez que envelheces

(Aos que envelhecem)

O grande objeto comove-se ao chão
e por sobre seu imoto redor, o chão
e a procedência calma deste tempo
o grande objeto comove-se pela calçada
intacto e grande, e passa-se, como passa
o hálito desmedido das horas
Vê como és frágil, a este ponto, às horas
as que iças junto aos corpos desta terra
se há em ti a permissão de vê-los
aos objetos de menor contenença
iça-os ao comovido chão do grande objeto
se estás ainda a estas horas, quando iças
ao chão e aos redores, e dirige-te
donde estiveres em caudas, ao comovido céu
e à dele várzea tão de mesmo comovente
abaixo do grande objeto
Vê como és frágil a este ponto, ao objeto
grande por sobre erguido em tua nuca
e que a teu imoto redor comove-te
se deparas umas flores miúdas, quais te parecem
fortes, que te parecem homens.


[sugestão de áudio para a leitura - Cantata nº42 de Johann Sebastian Bach]


Atlas

Dissidente ou o apanhado novo

Se há o solo por onde vôo a pés de mim
e se hei eu de quedar aos céus indeparáveis
deparáveis se o sol balouça os olhos, agora
já onde ergueu-se tua morada dissidente
sobre uma lasca da calçada com um palmo
de medida, sem estrada, sem pé nela, agora
já onde ergueu-se tua morada à sucção
de entornados tijolos teus, sem barro, sem mãos neles

Se há de carregar o dia esta janela, o sol balouça
vertiginosa esta janela, se há a mão de carregar
Se há de encorajar o dia este estado, o sol carrega
desengonçado este estado, se há a mão de balouçar.

A tua casa, o teu estado, a tua janela
tua fronha morna sob o poente embriagado
hei de carregá-los à cabeça, agora o sol
que balouça meu telhado já bajula destemido
o apanhado novo de tua sorte, agora os sóis
hão de pousar as tuas novidades aos indeparáveis céus.
Agora deparáveis.


Anita Malfatti


[Saiu a Edição 43 das Escritoras Suicidas. E são os temas: escuro, ausência, miudezas.]