Do que recolhe o vôo

A Iara Fernandes, Guru Martins e ao amigo Hermano.


Só o amor não está morto
espanta-me
todos os corpos são este
e outros objetos que não estão mortos
todos os tomates serem o tomate
e a circunferência insistente e lisa das coisas
de quase todas as coisas
as coisas do teu filho respiram
já podes quase vê-lo
a alcofa é quente - o teu corpo
o que resta parece ser aquilo que ainda está quente
a grafia do há-pouco-atrás
todos os corpos serem este
espanta-me
estas horas que o carregam
porque estão estas horas mornas e largas e mansas
estas horas que nos carregam
ainda nos amarmos e agora nos amarmos
e este abraço pelo resto da vida
que há em nossas mãos que nunca existiram?
todos os corpos serem este
morreu-nos tudo
ou assim já estávamos, as mãos
que não existem
um vôo cresce e explode aos céus
não há ruídos
um vôo cresce e explode pela boca
não há horas
o amor e o há-pouco-atrás
ainda é morno estar vivo
e a impressão de ser uma cortina vagarosa
a vida precisar da vida precisar da vida
e o vôo não ter objetos
porque os objetos respiram
somos nós uma alcofa
ainda quente
ainda grande
o teu filho respira, o teu filho respira.



Cresces onde pisas

A Flávia

Que virá destas terras? Teus pés
ou suam, ou suam os grãos
deles abaixo
não viste ainda terra a ser pálida
conquanto seca, onde sulcas
é rubra a terra sempre o chão:
ou morre-se ou vive.

A levitar não aprendeste
se, pois, estás viva. Está o ponto
aqui onde a correnteza e outras vezes
mais tantas vezes a correnteza
e há o barranco despido, sempre há
tua lisa encosta e o grão escondido
então estás viva onde a correnteza
outras vezes a correnteza.

O telhado deu-te cria, e tu voas
porque há o corpo (há o corpo?)
se é o riso escopo da boca
indifere o pulmão do ar

o que pesa de teu cílio é grão
o que voa de teu corpo é mar.



Anita Malfatti