Esta manhã que os dedica

A cortina vagarosa
para Iara Fernandes.


A pestana que se fecha
o que inscrevemos ao suspiro antes
da palavra. A tua palavra
dizes a que repousa
ao longo da minha palma, é minha mão
ou a tua - outrora um objeto guardara-se
algures, é a tua mão.
Que mais se guarda, se omissos
o objeto e a pestana, a que se fecha?
- daí ao que somos - tudo se guarda
ao suspiro antes da palavra.
E a minha infância em teu estojo
o escopo era o trilho, e a tua mão
a quem verti meu território de nascimento.
Entende, a mim tudo passa
tão largo, como o rastro espesso luminoso
da tua visita, tua plácida aventura, gelatinoso
como os anos que tenho.


Ah!, esta clara e cedida alvenaria
do teu pensamento, ou do meu, há tudo grato
pelo que amarras, ou que se confunde
tão claro e largo, como o rastro espesso luminoso
da tua vida.






O teu senso ou o que se deve e não
para Isabela, minha irmã.

Nunca foste a ovelha que do leito
se vai e despenca
Foste entre nós a única
a crer verdadeiramente
a descrer verdadeiramente
como quem indica o caminho entre dois pontos
emudecendo o possível pensamento da cavalgada

intentávamos um lobo e pintávamos azuis
os seus olhos, por causa dum ruído
antes do uivo
Tu fechaste a porta para o ruído
onde nunca existiu o lobo
Porque da amálgama separaste a cor,
a cabeça e o sentido
como do joio o trigo
e estás a medir-nos o que deve e não
tu que assim sempre estiveste
enquanto aguardas a feitura do pão
e prestas tuas condolências
à parte que não se assa.

Nunca foste a ovelha que do leito
se vai e despenca
levaste dos pêlos de nossa mãe
um chumaço com cheiro
e dos linguajares de nosso pai
aquela sólida estadia
tu bem sabes

Há uma luz evidente e farta
há uma luz em teus arredores fartos
que tonteia e espalha, confusa
entre o alvo e o verde
da tua pele e d’algumas certas
veias aparentes.

Dizíamos: és verde!
Disseste: isto é verde, ou aquilo
Devemos a ti também os olhos
um certo número de olhos devemos-te
nós, que nada conhecemos de cores.


Elegíveis
para Carla Diacov

Outra vez recruta-me
a trajetória infinita e borbulha
pelo copo sadio da manhã, ou o fruto
borbulhava há mais horas desmedidas
há mais horas no que vimos
em tudo o que diríamos: vimos
outra vez a trajetória toca-me
e convalesce as compressas, ou o fruto
ainda borbulha e desmede
a cega esperança deste tempo
é tudo o que nos carrega ao grande
ferrolho do dia
do outro e outro dia
a cega esperança deste tempo

Não houve um lugar
o sumo grosso da parede
não pretendíamos ser a pedra aventurada
há um pequeno lugar que voa
cintila e some
o sumo árduo da centelha
da única centelha que vinga
o meu eterno

outra vez concedo-te nascer
toca-me a bolha pelo copo sadio
eleito da manhã, ou teu visgo
no peito insustentável da parede
quando a tua voz range
quando range a tua cabeça
quando a tua tez range
o teu visgo guarda a seta
da infinita trajetória que recruta.



Um imenso
para Leonardo B.

Estou grata,
já homens partem de palavras ou partem
estas, dos que assim dizem.
E tu já antecipas
possíveis os dois lugares
estes, dos que assim dizem
dizem: aqui e ali, há um ambívio
o teu braço, o rio.

As tuas aparências, já imensas
no que dizes: homens são horas
todas as pernas carregam a luz e deslizam
da primeira manhã que nasce
a tua voz ouve o que digo, agora
o que digo: quando findar o ancho
infinito, tu correrás, ainda agora
como corres e carregas
a primeira manhã que viste.




Desenho de António Ramos Rosa
http://estacienciadeinocenciaeagua.blogspot.com