Canção a certos sonhos

I
Corramos violentamente ao mar
Tudo que é móvel inicia-se pela manhã
e estou a esgotar: é noite, já não me peçam
Deixem-me cobrir os dois olhos
e o corpo, pelas pálpebras, lençóis.
Ainda quer mover-se o corpo quando se deita, certo vôo
a direções que nem este poderia saber
já é noite e parece-me cada hora encerrar-se, anterior a outra
deixem. Quero mais deitar, mais que isto
feito pelo corpo. Como a água que ainda mais
pode espalhar-se.
Tenho-me levado a sendas a que desvejo, não devo, pois, perceber
a infância veio a parecer com palavra que não existe:
estamos a não poder perceber as coisas quando estão
sempre estivemos.
Deixem-me cobrir pelas coisas que estão em demasia,
porque há o pensamento. Penso que muito delicado é
o instante em que o dia instala-se na noite
e essa nesse. E depois. Tudo são sendas temporárias.
II
Sôbolos sonhos que tive: eu a amo.
Penso que em pouco devemo-nos beijar.
Algumas horas encerram-se. Ainda. Ela aguarda, está bem.
Penso que tudo está bem. Quero ainda mais deitar-me que isto,
as águas. Os pés hão de molhar-se, ela aguarda
para recolher. Deixem-me tocá-la antes que o mundo
(então esquecia-me... O mundo...)
Penso que o mundo pode-se ter ido, dias desses, a ir
por si. E já não posso com isso
tenho certo gosto pela vida. E ela aguarda-me:
dos mais sonhos que tive.





[Primeiro poema da série A Mulher da Manhã ou da Noite, dedicada a Carla Diacov]