A natureza dum confete

para Marina.

Quando duma brisa pacata a certo dia
como fora a estadia dos afetos
pacatos em nós
eu erguerei-me à janela estimada da manhã
e lançarei inebriada meus confetes que demoram
levitam a cair.
Já tudo se dispersa, vagaroso,
indomável, porém.
Tu sabes da beleza que assumem
essas coisas levitantes pela luz:
de minhas manhãs, mais desfrutaste
que eu podia.
(tu sabes da beleza que assumem
essas coisas que se vão)
Já tudo se dispersa, uma vereda
fez-se duas
pelo barro de antigas cavalgadas
fomos sobre duas pernas um monstro cuidadoso
e a virtude e inocência de um monstro
cuidadoso, ensimesmado.
Íamos. Nossa vereda
fez-se duas.
Mas vê atrás, no exato ponto em que bifurca
uma ininterrupta criança a nos olhar
como ao cãozinho que se vai, demasiado horizonte.
Como a criança que deixei em meu quintal
perene de aguardo. De aguardar-me.
Como a que tu deixaste
àquela sala que conheces. A primeira janela que te invade.
Vivemos a protegê-las
e tu sabes da beleza que assumem
essas coisas olvidáveis.

Vês os confetes insondáveis a pairar
o baile grato que se finda: há tudo bem
e nada há mais
Já tudo se dispersa, a vereda
fez-se duas
Mas tu sabes da beleza que assumem
essas coisas que já fomos.





[Na página Por Outros palavra em delicado e suspenso fio de ar. Corrida mole de veleiros. Brisa carente de orelha. Fartamente concebido e concedido por cduxa]