Donde as naus destas tuas mãos

I
A minha alma transportou-se para longe, para longe
onde pequena uma asa move lenta, move veloz
ouve-se como a uma nau, para longe, para longe
vê-se como a uma nau para o sempre, para o sempre
e repete-se vagarosa, repete veloz, como o bicho
que pode agora estar pela morte, que pode estar por nascer
lento, veloz,
Este ruído não se deixa dividir, ouve, a vida
o tempo transporta-se para o som, para o som
onde a arquitetura dos olhos descansa
transpassada pela nau, que a tudo tateia, de tudo se vai
para o sempre, para o longe,
onde anuncia um vaga-lume que há o céu sobre o monte
donde a tudo pode-se ver, recoberto
pelos céus, sobre um monte. Vagoroso, vagaroso
que pode se estar a girar, que pode se estar vivo
como então o bicho, agora pela morte, ou a nascer,
II
que fizeste da tua palavra o meu intrépido nascimento.
O que descansa da nau é o seu nome, como o teu nome
a encharcar-me lenta a alma pelas beiras
- amolece-me ainda o temperamento das águas
e duma interminável água pequenina
que inscreve-se sobre o chão
como a alma e o cio que sobrevivem
duma primeira palavra. Vagarosa, veloz -
Trazes ao entorno da voz
uma espécie materna de bacia, cujas moles paredes
de cor indefinível, pacientemente me recolhem
na posição fetal de meu espírito.
Vê, olha o meu antecoro sobre este campo -
o que a mim tu trouxeste é impassível de dor,
mais pelo seu repouso que pelo sacro entusiasmo,
e inscreve-se pelos solos como a água que não se termina
vagaroso, veloz, e recobre-se pelos céus
sob os pés do monte, donde o tudo pode-se ver
e instala-se lento, instala-se grande
donde as naus destas tuas mãos
transportam-me para o sempre, transportam-me
para o longe.

















[segundo poema da série A Mulher da Manhã ou da Noite, dedicada a Carla Diacov]