terceiro diálogo - a padaria em determinado número de horas

Depois duns três segundos é que percebíamos que os dois carros na esquina
Fulana! Bateu! Viu?
E um outro homem ainda depois duns mais dois segundos levantou-se. Bateu, viram?
Estava tudo se demorando por cerca duns três segundos, ou duns mais dois ainda pra que alguém se levantasse. Vê? Por Deus, como é que se demora a esquina chegar até aqui! E todos continuam sentados, à exceção deste homem, que parecia-nos não mais nunca ir a se sentar e nem ir a se ir para perto da batida ou para casa, e parecia-nos que tinha no homem aquela permanência dos automóveis de mesma cor.
Mas senta, homem! E ele sentou-se. Era permanente como a grade televisiva e a espera dentro da tarde, como os automóveis de mesma cor. Ele sentou-se: gente, vocês viram que bateu?
Uma coisa perigosa...
É. Tinha razão. Tanta, que contivemos certo medo pela vida, tal a infância, voltamo-nos à infância e dela saímos, porque contivemos o medo como homens. Eu como mulher, e tu, também. E contivemos a vida como duas mulheres, tu abaixando o escopo dos olhos sobre o balcão, e eu
Querida, sabes que tenho a observar toda a manhã a tua idade? Mas a minha idade? Sim, pois, querida, pelas tuas maneiras de ouvir: pareces já vir dumas encarnações. Quantas delas? Olha, chegou a polícia antes da ambulância. Mas acho que a ambulância nem vem precisar, estão de pé.
E nuns dois segundos o homem de permanência levantou-se: viram? Chegou a polícia.
Tu continuavas a parecer com um monte de encarnações, sendo que guardava a impressão de acontecer a qualquer momento de me virar o rosto e contar-me segredo qualquer deste mundo. Que o mundo tem o formato dum fruto que conhecemos? – deixei escapar pela voz a pergunta que vinha ao pensamento. Tu perguntaste: quê? Eu fingia que era uma repetição: põe os olhos para o balcão, o homem de pé parece que nunca mais vai a se sentar. E tu rias. Mas punhas os olhos para o balcão.
Depois os contidos sob o vidro do balcão começaram a se desperceber, amiúde, em segundos, e em segundos amiúde os cotovelos e contidos sobre o vidro do balcão não se mais percebiam, os homens e contidos por dentro da padaria e os segundos da esquina até ali iam a perder a característica de serem percebidos. Tu e os homens e eu e nada a percebermos. Porque o sol recostou delicado a sua pelugem sobre as costas do telhado, e os nossos olhos ficavam como dois pares de bons filhos deste mundo,
alguma gratidão acerca daquilo que o sol fazia roçava-nos como uma coberta rasteira
no acaso em que a mão dum senhor (havia a possibilidade daquele senhor já ter se acostumado com as manhãs) tocara a tua mão, e a tua mão nem fora tocada como normalmente se tocam as mãos, sendo que ela ficara desapercebida pela mão do velho, sendo que enchia-se por dentro e por fora duma existência parecida com a incomunicabilidade do sonho, e também o teu corpo e os teus olhos, e tu me deixavas escorrer a matéria dum sonho, e tudo ia sendo encharcado em delicadeza pelo sol.
Por três segundos a mão do velho afastou-se
pedia desculpa, terna desculpa de quando se toca uma outra mão no acaso
mas os nossos ouvidos estiveram dormentes recheados lentamente, parte pela matéria onírica de que tu me infestavas, parte pela pelugem do sol que escorria pelo telhado.
Então o bendito espírito da preguiça desprendeu-se da cal pelas paredes e aproximou-se, bendito, tocando as nossas cabeças com as mãos, como se as protegesse, benzesse, concedendo-nos certa esperança comprida, gorda, demorada, e tombou manso sobre nossas colunas,
a eternidade, e tu parecias com dois grandes braços pelos quais ela esticava-se
amiúde, por um a um dos dias da tua vida
A padaria, tudo não mais existia, porque vinha a tarde, as tuas mãos e os homens, os cotovelos sobre o vidro e o vidro do balcão, porque vinha a tarde, e mesmo o sol já não o era, meu Deus!, já era outro.
Levantamo-nos a ir, tu para onde te foste, eu para onde me ia.
E o homem permanente trocara de turno com o rapaz de mochila que apressava-se. Porque o uniforme dum balconista há de ser três peças bem vestidas e um par neutro de calçados. A lacuna do homem permanente fora preenchida por um rapaz de juventude, de peito fugaz, e a lacuna do homem permanente desfazia-se pela tarde, morria perecível, eternizava de manhã.
E foram dois segundos até que o velho anterior de mãos distraídas saudasse o rapaz: teve batida na esquina. Mais cedo. Viu?
Perigoso...
E o jovem conteve um certo medo pela vida. O senhor vê?, assim de manhã... Alguém está morto? O velho riu-se, cuidadoso: não sei, filho, mas estavam todos de pé. Deus queira que bem.