a imagem à mesa e a imagem do céu

Quarto diálogo – a imagem à mesa

mastiga vagarosa
quando comeres
deixa que tua saliva brotando por baixo da língua recubra teu alimento e que abrace-o por fim. Os teus olhos voltam-se para dentro e aguardam que tudo possa estar resolvido nas paragens do teu corpo, enquanto que comes. Depois voltam-se para fora – quando engoles. Tu nem podes dar conta dos teus olhos, há coisas demais a fazer, e tu a fazeres, como mais uma vez explodir o alimento entre os dentes. Deixa a saliva correr pela boca no vagar duma serpente que
recobre
o corpo dum carneiro com seu corpo
e acaricia-o, porque ele está a temer, ela reza-o, irão render-se em pouco, assim tem sido a vida, há pelo menos alguns séculos
teus olhos voltaram-se para fora, tu engoles e volta-se
para fora
já deixaste de pensar numa serpente com um carneiro, há demais coisas a fazer, há pelo menos alguns séculos.

Imaginai um carneiro a render-se sem o medo
e depois tudo que corre iria a correr, e o que pinga iria a pingar, e o que embala iria a embalar, depois do carneiro, enquanto que a serpente tem os olhos voltados para dentro, e está já a descansar, estão, ela e o carneiro.

Até que acabe o teu alimento
e tu te voltas para as coisas que vão a continuar
imaginai as horas e os varais, os varais e as roupas e a sua forma passível de esperar pela vida
há alguns séculos pelo menos.











Quinto diálogo – a imagem do céu
  
Vejo que clareia o céu acima
outra nuvem que dissolve na boca azul e pelo sol vai transpassada
e que tudo são alimentos das horas
a boca azul sobre cabeças, e os membros que funcionam pelo bem,
há um deus a quem agradeço
pois agora estou a lembrar-me
de que tu percebeste certa nuvem com formato duma boca de pessoa que se ria, docemente, e então fotografaste a nuvem
lembro-me agora porque faz-se o instante em que vejo:
percebo-me da tua voz, que tem cores, reparaste?, tu guardas na voz determinadas cores agitadas pela língua: são três
uma de quando chama-me bonina
duas outras que misturas quando lanças aos céus os teus dizeres
e agradeces – há um deus para isto

Depois tudo são alimentos coloridos
assim também os somos
dissolvemos na boca azul agradecida
e depois vamos
pelo sol vamos transpassadas
bem aventurados alimentos das horas.








Na página Por Outros, três poemas a escorrimento de Nina Rizzi. Os três foram arrancados sumarentamente da casa de onde a Nina...: ellenismos. Ainda não satisfeita, há um outro que escorre além do três.