Jogo de chá sobre esteira

Homens precisam nascer
precisam morrer e trotar sobre esteiras
e são demasiados homens. Fazem o barro para procriar, pais de jarros e panelas, fazem ao barro da bolsa de suas barrigas, um homem não foge ao ventre que o concebeu, são magros, de barro. Todos os homens são magros, apressados. E fazem jogo de chá e fazem forros para a mesa. Sobre a mesa apóiam-se os cotovelos e o descanso dos olhos quando percorrem recontando as flores estampadas pelo tecido.  Há tantas xícaras para tantos homens. E mesas em menor quantidade, quadrúpedes como cães.
O chá duma senhora está repleto
há demasiadas tardes de chá para um mesmo sol tão jovem
há um sol para cada dia, e tão jovem
o sol precisa nascer
o sol precisa morrer
e são demasiados nomes para ele. Um para cada homem que o chame. A esteira é sobre onde o homem trota, e sua vida, tudo se avança e torna, tudo a nunca ter descanso, ou o descanso a se mover, ainda que durante o chá da tarde pareçamos habitar o centro da esteira. Tudo deságua pelas superfícies e se arrebenta nas margens, segue para seu torno, porque a mesa é mesmo um quadrúpede austero, mas o jogo de chá sobre as flores
as xícaras como as aves
os homens como as aves
seus olhos de porcelana suas almas de barro.



















[quarto poema da série A Mulher da Manhã ou da Noite, dedicada a Carla Diacov]

Variações sobre o que dizes





Nichos / Um Bordado Assim e Assim


deito-te sobre o caderno de sonhos
vejo um teu medo passado
próximo da respiração de medo ofegante, digo, de medo e que dizer-te com medo, ofega ao mundo que vejo, um terrível instante,
donde a concórdia? donde a concórdia, meu bem? Estou a plena borda do dia do nicho a nascer
morrendo desse medo.
(Carla Diacov)



caderno dos sonhos curtos e medrosos

I
Um punhado de grãos e as mãos
e a boca medrosa a rir
ocupamos a rua de nozes e castanhas menores, sobrepondo seu asfalto, duma margem à outra, de infinitos punhados a rua, duma esquina à outra
enchemo-la
caminhamos para trás trinta passos
à espera dum automóvel
ao rés da vinda
ansiávamos com medo, ríamos, uma boca enorme
e duas rindo
ao que nada vinha, essa débil ocorrência do deserto que nasce pelo hálito da rua
à volta tudo prosseguia
e nem um vizinho por detrás qualquer de janela a partilhar desta hora trêmula, iminência, tu vestias-me do medo e ríamos
ao que nada vinha
que dirão nossos pais? – desta rua aquém
desses automóveis

II
noutro sonho
os teus olhos gigantes inflavam e tomavam
o terminal rodoviário. Homenzinhos espremidos contra seus pastéis manobravam os corpos para ingeri-los. Outro tentava levar a mão ao bolso, recolhia níqueis com dificuldade.
Riem apreensivos e esperam que beijemo-nos às pressas
beijamo-nos com um excesso de saliva que pingava sobre teu pé esquerdo e o bico do meu pé direito, beijamo-nos e babamo-nos de medo, como fazem sapientes os cães filhotes
mas tu foste àquela hora como que a girafa dentro do torvelinho sem envergar
além de teus olhos crescentes, parecias com a hora boa de receber-me
torvelinhos, torvelinhos, medrosos, são gases dentro do peito
e eu respirei para partir
eu, como eflúvio de teu corpo, a partir
como dum sítio pela inédita vez me arrancasse
depois o ônibus ia mover-se arranhando os teus olhos. Mas tu foste àquela necessidade como que uma grande rocha secular com dois seios a que chamamos de mãe.
E ainda és. Espécie de girafa e de mãe com dois grandes olhos com dois grandes seios

III
então nasceu o medo e ainda menino estivera a rodear entre veleiros, homens do mar e os bichos d’água. Acordamos ao centro duma ilha exposta pela janela. Minha mãe ao vão da porta aquecia as mãos e pedia-nos
que algo fizéssemos para comer

IV
este cavalo explode a correr sobre a várzea assustada pelo possível limiar de destampar-se do solo, este cavalo corre parecendo com mula, parecendo com burro, parecendo com pássaro como os pássaros que arrebentam contra seu peito, este cavalo arrebenta-se contra o meu peito, este cavalo vem sendo um bom homem, vem sendo um bom filho, vem sendo um bom medo, este cavalo corre, este cavalo corre, este cavalo há de morrer quando perguntarem-lhe o nome