Jogo de chá sobre esteira

Homens precisam nascer
precisam morrer e trotar sobre esteiras
e são demasiados homens. Fazem o barro para procriar, pais de jarros e panelas, fazem ao barro da bolsa de suas barrigas, um homem não foge ao ventre que o concebeu, são magros, de barro. Todos os homens são magros, apressados. E fazem jogo de chá e fazem forros para a mesa. Sobre a mesa apóiam-se os cotovelos e o descanso dos olhos quando percorrem recontando as flores estampadas pelo tecido.  Há tantas xícaras para tantos homens. E mesas em menor quantidade, quadrúpedes como cães.
O chá duma senhora está repleto
há demasiadas tardes de chá para um mesmo sol tão jovem
há um sol para cada dia, e tão jovem
o sol precisa nascer
o sol precisa morrer
e são demasiados nomes para ele. Um para cada homem que o chame. A esteira é sobre onde o homem trota, e sua vida, tudo se avança e torna, tudo a nunca ter descanso, ou o descanso a se mover, ainda que durante o chá da tarde pareçamos habitar o centro da esteira. Tudo deságua pelas superfícies e se arrebenta nas margens, segue para seu torno, porque a mesa é mesmo um quadrúpede austero, mas o jogo de chá sobre as flores
as xícaras como as aves
os homens como as aves
seus olhos de porcelana suas almas de barro.



















[quarto poema da série A Mulher da Manhã ou da Noite, dedicada a Carla Diacov]