Variações sobre o que dizes

NICHOS / ESTAMPAS PARA SELOS - 2

segue junto ao escrito a estampa da cortina que daria para a janela que daria para o jardim de boninas que daria para a janela da casa ao lado, onde estarias tu, a espiar a hora desta
retalhada carta em enchimentos para boneca.

(Carla Diacov)



caderno dos sonhos absurdos – sonhos com selos


I
Consecutivos na parede são três selos
o primeiro estriado fez-te pensar, sobre o Atlântico, venta-se muito sobre um oceano, porque a cal demonstrava vento na parede e tu já vias o aviãozinho contra o ar
sobre o Atlântico estriado
o primeiro selo trazia-te
a porção quadrilátera, invisível, do mar.
O segundo e o terceiro selos eram o aviãozinho e o carteiro, propriamente,
supondo-se que o carteiro era quem esperava-te ao contrário
do itinerário proposto
tu chegas depois, dias depois das tuas mãos, das que já cuidava o carteiro, esperando-te chegar. Tu chegavas ao encontro das mãos e o carteiro olhava-te clemente para que abrisses
com zelo os olhos
a boca e o peito para as mãos
com o zelo abrires então o apanhado abaixo dos selos, levares à casa e sentares-te sobre a estampa estriada da cadeira
e que inteira com o zelo tu te abras
e que não te acordes ainda,
espera:
tu te afastas das mãos quando depositas
os ventos oceano acima, as estrias sobre o Atlântico.
Quando te acordas, miúda
uma gota do teu suor oceânico
e à frente do suor o horizonte
e o horizonte quilômetros
para dentro da tua fronte.

II
Desde que parti nós dormimos
estamos a dormir onde vamos
mas tu por vezes te moves e esticas, range o estrado, o estalo das madeiras irremovíveis das pernas da cama, fixados no ar para o sempre. E tu fazes o que queres quando dormes, e o que queres vem a ser sempre aquilo que já fazes, antes ainda que assim o pudesses, que tu vens a merecer de tanta merecendência daquilo que queres – daí mostro-te as belezas que explodem de tua boca quando tudo e qualquer dizes, e tu te ris, ris com a abertura animalesca da boca, e as coisas maiores eu vejo: que um selo tens em cada dente
de cada federação, dum estado, um rancho
alimentos irremovíveis então do que dizes – quando tudo e qualquer dizes.

III
o muro coberto de selos
próximo da esquina que atravessas
trazes ao redor uns e outros torvelinhos
seus de companhia. Tudo perde-se dos nomes sacudido pelos teus companheiros sobre as ruas. O muro estampado de selos rodopia com um torvelinho atrás de ti, então uma erupção de papeizinhos de dentro do rodopio, os selos pairam arrancados do muro que gira, os selos direcionam-se para ti, como tudo, e tu estás estampada dos selos, coberta, e tens os braços e as pernas tão compridos e os teus olhos, teus comprimentos com capacidades para comportar todos os países
para a correspondência. Carregas assim a geografia. Tens tão comprida a tua língua, então capaz de dedicar-se a cada selo
e lamber
depois teus dedos enormes
ainda a cada selo, alto os levam para cima, pressionas
com o indicador
que tu pregas ao céu


IV
Viajávamos na pequena caixa
pelada, a nada inscrita. E ao nada nunca chegamos ou nem não paramos de ir. Viajamos com certa estupidez
tal qual a esperança
dos animais na caixinha ao lado. Os selos para dentro da caixa, que tu percorres com os dedos para demorar. E é certo que demorar é que vamos
ou nem nunca pudemos partir
e é certo que a demorar estamos
e já não se pára, pois, de se ir.