O parapeito antes das mãos antes dos braços

para o Gabriel Leitão

O cultivo da cana, o cultivo do algodão
o dos grãos, e o gado
há algum vento (sempre) que eriça e flana
os corpos que descansam sem os olhos sobre si
A cana, o algodão e os grãos, e dum boi
o silêncio parcimonioso, inesgotável.
O linho tem pressa, o álcool e os automóveis
têm pressa. Demasiado os filhos estão crescendo.
Contudo lavas as mãos para jantar, afunda-as exageradamente
na toalha invertebrada, feita para tanto
uma coisa feita para isso, outra para aquilo,
tu te sentas e afundas exageradamente os teus olhos
na continuidade da janela (o fazes todas as noites e nunca fizeste)
a margem do parapeito para o mundo
de lá há qualquer coisa (sempre) que nasce e vigora
qual coisa quer que nasça, e vigora
sabes com benevolência o grande número dessas coisas
e já há alguns anos que dizes é irrefutável
vigora irrefutável - sabes - há pouquíssimos anos diante delas
dizes é irrefutável
só que acenas o cenho para a árvore da manhã
que move-te os braços
e os teus olhos entram fidalgos pela janela, pairam sobre a mesa
Tens falado pouco. Dizes apenas é quente
dizes está bom, dizes está longe, dizes parece-me azul
dizes é frio, é áspero, tem muito líquido, ficou lento
dizes venta, e venta muito, é irrefutável
Tu te lavas e te deitas e tens o silêncio do boi
parcimonioso, inesgotável
Tu aguardas com benevolência
o cultivo da cana, do algodão, o dos grãos e o gado
Obrigado. Dizes
obrigado.



Caravaggio

Os seus dentes brancos ou os seus dentes claros

"[...] e obcecada pelos caracóis, tanto que não se mexeu ao primeiro grito de Nenê. Todos corriam e ela estava sobre os caracóis como se  não tivesse ouvido o novo grito sufocado de Nenê, os socos de Luis na porta da biblioteca [...]" (Julio Cortázar, em Bestiário)


Seus dentes claros cegaram-me
seus dentes claros cegaram-me e morderam-me
os olhos
Um tigre no escuro, três minutos para a valsa, três minutos antes do tigre
a biblioteca tão alta, as janelas, a valsa cândida das meninas claras e de todas as coisas
que são claras
Depois o tigre no escuro, as mãos desatam-se, as janelas retiraram-se com o vento, as meninas têm tantos filhos no salão ao lado, e eu fiquei para ver o farfalhar das asas no voar dos livros e das janelas - os médios, duros, os de bolso pequeninhos e um grande atlas. Mais as quatro esbeltas janelas -
mas a porta, que ficara, não sabendo voar, cochilava de tão velha, de tão alta, de tão gasta
e fiquei no centro sobre o chão
da biblioteca
que já não era apropriada pelo nome
e o tigre no escuro, o tigre óbvio e impoluto, a transição certeira dos meus doze
aos noventa anos
e eu estive cos noventa
e olhava-me aquele pote alaranjado dos anos, olhava-me com os seus dentes
os seus dentes claros que cegaram-me. Que cegaram-me e morderam-me
os olhos.


"Tudo menor, mais cristal e rosa,  sem o tigre então, com Dom Nicanor menos grisalho, apenas três anos atrás, Nino um sapo, Nino um peixe, e as mãos de Rema que davam desejos de chorar e senti-las eternamente em sua cabeça, em uma carícia quase de morte e de baunilha com creme, as duas melhores coisas da vida." (Julio Cortázar, em Bestiário)