O parapeito antes das mãos antes dos braços

para o Gabriel Leitão

O cultivo da cana, o cultivo do algodão
o dos grãos, e o gado
há algum vento (sempre) que eriça e flana
os corpos que descansam sem os olhos sobre si
A cana, o algodão e os grãos, e dum boi
o silêncio parcimonioso, inesgotável.
O linho tem pressa, o álcool e os automóveis
têm pressa. Demasiado os filhos estão crescendo.
Contudo lavas as mãos para jantar, afunda-as exageradamente
na toalha invertebrada, feita para tanto
uma coisa feita para isso, outra para aquilo,
tu te sentas e afundas exageradamente os teus olhos
na continuidade da janela (o fazes todas as noites e nunca fizeste)
a margem do parapeito para o mundo
de lá há qualquer coisa (sempre) que nasce e vigora
qual coisa quer que nasça, e vigora
sabes com benevolência o grande número dessas coisas
e já há alguns anos que dizes é irrefutável
vigora irrefutável - sabes - há pouquíssimos anos diante delas
dizes é irrefutável
só que acenas o cenho para a árvore da manhã
que move-te os braços
e os teus olhos entram fidalgos pela janela, pairam sobre a mesa
Tens falado pouco. Dizes apenas é quente
dizes está bom, dizes está longe, dizes parece-me azul
dizes é frio, é áspero, tem muito líquido, ficou lento
dizes venta, e venta muito, é irrefutável
Tu te lavas e te deitas e tens o silêncio do boi
parcimonioso, inesgotável
Tu aguardas com benevolência
o cultivo da cana, do algodão, o dos grãos e o gado
Obrigado. Dizes
obrigado.



Caravaggio