Sétimo diálogo – a imagem errada


Essas coisas que vejo eu já não consigo
pôr-lhes a ver
já nada os posso, podem-me não conseguir também
mas tu
tu tens os meus olhos em teu rosto
aquilo que víamos, amor, não conseguimos mostrar, não podemos já nada aos justos amigos e mesmo os anjos de guarda olham-nos doutro jeito, ou nós, ou nós nem mais assim podemos
vamos calar, calemo-nos
deixemos a louça por si a secar, cuidemos da casa e dos bichos
e iremos de quatro pelo resto dos dias
viu que somos enormes? E somos mesmo invencíveis, irão dizer Ah!, mas são mesmo enormes!, e se não disserem será aquilo, será aquele problema da visão, porque aquilo que ainda agora víamos, com isso já não podemos, devemos calar
e iremos cumprindo pelo resto dos dias
viu que somos uma graça? E somos mesmo capazes de amar até que toda imagem se arrebente.
Não, não é nada disso.
O poema nasceu errado e não é nada disso. Está mal escrito e está errado, como nasceu.
Eu deveria ter dito apenas que não se tratava de um poema. Então eu preciso explicar que não se trata mesmo de um poema. Eu devia avisar que estou pedindo alguma ajuda, alguma espécie ingênua e engraçada de ajuda. Eu não sei mesmo o que é que eu devo estar querendo, mas está em ti. Tudo está em ti. Absolutamente tudo está em ti.
Então traz a mim algum objeto ou... Amor, algo qualquer, traz algo qual quer que seja Algo, eu preciso, amor, e desconheço. Mas está em ti. Sim,
tudo está em ti.
Agora sim. Penso que podemos descansar.
Agora sim – não se trata de um poema – não penses que é um poema.

TARANTELAS / início para as levas

tarantela entre o armário e a cozinha
para a Rachel

Vejo-te, vens lenta e
pesadamente debruço os olhos onde envergas. Debruço toda a vida; depois tu recolhes uma a uma as meias coloridas duma infância inda hoje e minha e tua; extenso rio de cabelo sobre os tempos; depois recolhes gota a gota as águas doloridas da minha cabeça.
Depois trocas o lugar das coisas
todas
e vais a ir com facilidade. Carregada em teus próprios braços. E com facilidade.



tarantela entre a janela e a área externa
para o Carlos Eduardo

Verdadeiramente nunca existiram os abismos
os enormíssimos de pedra e as colunas crespas dos céus e aquilo a que chamarem abismo normalmente não existe. Um homem mergulha da janela para a área externa para sempre e diz vozes provisoriamente perenes, ou isso desde que as ouviu. Este homem aponta o dedo para as coisas e diz para sempre
este homem aponta os olhos para as coisas e diz misericórdia
e diz I'm sorry, I'm so sorry
Ele bate as asas com tamanha virilidade além da possível violência cristã, além mar, e diz vamos, querida, para o ninho.



tarantela entre dois cômodos novos
para a Marina (a Ilze)


Queres da pluma um muro, ou dum muro a pluma, há plumas de fato e o que fazes às coisas deixando-as a ser o que és, tu deixas as plumas desatentas sobre os solos, há gentes de fato e objetos, há móveis enormes, mas plumas, de fato. E procuras-te na sala onde inundas, tu deixas testemunhas como o que tu fazes com as mãos e te perdes velozmente entre os nomes. Há móveis e escombros e gentes parecidos com as tuas mãos. Há tu, mas plumas.



tarantela entre o cabideiro e a lua
para o Ismael

Umas porções de terra ou de água ou de homens são repetitivas e incansáveis, umas após as outras as coisas nascem para derramar. Em verdade, nada quer se colidir, e as velhas fazem bolos com espantosa naturalidade, e é tão fácil amar. As senhoras com nomes de esperança.
O menino apaixona-se por minutos, corre, apaixona-se, corre, interminável, interminável, e traz duas cestas grandinhas com os corações para transplante, dizendo eu não sei mesmo se acredito, mas disseram que era isto
e estão absolutamente todos a salvo, e os que já estavam, e ficam vivos
e o menino não sabe mesmo o que dizem. Apaixona-se, interminável.



tarantela entre a gaveta e o bairro
para a Ingrid

Uma pessoa veemente em forma de frase prolongada carrega sinais dos bairros para os outros bairros, leva automóveis para a casa, tem um barbante enorme de coisas a fazer.
O espelho com sinais das cidades e travesseiros camuflados
o espelho aturdido volta-se para si. O espelho dela carregado faz cidades. E ela carrega os bairros. Não será preciso segui-la, leva-os a força, à superfície e o ar.
Entardece para que deságue, e os olhos com um cais, e sua alma atraca.



tarantela entre dois quartos parecidos
para o Tarcísio

O que queres, o que dizes, o que estás a trazer e a simplicidade com que chegam-te as coisas ao redor. Um nome a cada, um ruído indefectível chama-te a brincar, e tu erras, e tu fazes questão, e esforças-te para errar, um nome a cada, balanças a cabeça e explodes um ruído indefectível, um nome a cada
que giram com velocidade
as paragens e os paços espessos com animais domésticos dormindo
infinitos tipos de talheres sobre a mesa baixa, primitiva, um nome a cada
e tu conheceste todas as coisas antes de chamar.



tarantela entre o quintal e a curva
para o Otto

Aos molhos os mares se arrebentam em silêncio
e tu cerras os olhos para alguém descansar.





Desenho em nanquim de Carla Diacov


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