Sétimo diálogo – a imagem errada


Essas coisas que vejo eu já não consigo
pôr-lhes a ver
já nada os posso, podem-me não conseguir também
mas tu
tu tens os meus olhos em teu rosto
aquilo que víamos, amor, não conseguimos mostrar, não podemos já nada aos justos amigos e mesmo os anjos de guarda olham-nos doutro jeito, ou nós, ou nós nem mais assim podemos
vamos calar, calemo-nos
deixemos a louça por si a secar, cuidemos da casa e dos bichos
e iremos de quatro pelo resto dos dias
viu que somos enormes? E somos mesmo invencíveis, irão dizer Ah!, mas são mesmo enormes!, e se não disserem será aquilo, será aquele problema da visão, porque aquilo que ainda agora víamos, com isso já não podemos, devemos calar
e iremos cumprindo pelo resto dos dias
viu que somos uma graça? E somos mesmo capazes de amar até que toda imagem se arrebente.
Não, não é nada disso.
O poema nasceu errado e não é nada disso. Está mal escrito e está errado, como nasceu.
Eu deveria ter dito apenas que não se tratava de um poema. Então eu preciso explicar que não se trata mesmo de um poema. Eu devia avisar que estou pedindo alguma ajuda, alguma espécie ingênua e engraçada de ajuda. Eu não sei mesmo o que é que eu devo estar querendo, mas está em ti. Tudo está em ti. Absolutamente tudo está em ti.
Então traz a mim algum objeto ou... Amor, algo qualquer, traz algo qual quer que seja Algo, eu preciso, amor, e desconheço. Mas está em ti. Sim,
tudo está em ti.
Agora sim. Penso que podemos descansar.
Agora sim – não se trata de um poema – não penses que é um poema.