TARANTELAS / início para as levas

tarantela entre o armário e a cozinha
para a Rachel

Vejo-te, vens lenta e
pesadamente debruço os olhos onde envergas. Debruço toda a vida; depois tu recolhes uma a uma as meias coloridas duma infância inda hoje e minha e tua; extenso rio de cabelo sobre os tempos; depois recolhes gota a gota as águas doloridas da minha cabeça.
Depois trocas o lugar das coisas
todas
e vais a ir com facilidade. Carregada em teus próprios braços. E com facilidade.



tarantela entre a janela e a área externa
para o Carlos Eduardo

Verdadeiramente nunca existiram os abismos
os enormíssimos de pedra e as colunas crespas dos céus e aquilo a que chamarem abismo normalmente não existe. Um homem mergulha da janela para a área externa para sempre e diz vozes provisoriamente perenes, ou isso desde que as ouviu. Este homem aponta o dedo para as coisas e diz para sempre
este homem aponta os olhos para as coisas e diz misericórdia
e diz I'm sorry, I'm so sorry
Ele bate as asas com tamanha virilidade além da possível violência cristã, além mar, e diz vamos, querida, para o ninho.



tarantela entre dois cômodos novos
para a Marina (a Ilze)


Queres da pluma um muro, ou dum muro a pluma, há plumas de fato e o que fazes às coisas deixando-as a ser o que és, tu deixas as plumas desatentas sobre os solos, há gentes de fato e objetos, há móveis enormes, mas plumas, de fato. E procuras-te na sala onde inundas, tu deixas testemunhas como o que tu fazes com as mãos e te perdes velozmente entre os nomes. Há móveis e escombros e gentes parecidos com as tuas mãos. Há tu, mas plumas.



tarantela entre o cabideiro e a lua
para o Ismael

Umas porções de terra ou de água ou de homens são repetitivas e incansáveis, umas após as outras as coisas nascem para derramar. Em verdade, nada quer se colidir, e as velhas fazem bolos com espantosa naturalidade, e é tão fácil amar. As senhoras com nomes de esperança.
O menino apaixona-se por minutos, corre, apaixona-se, corre, interminável, interminável, e traz duas cestas grandinhas com os corações para transplante, dizendo eu não sei mesmo se acredito, mas disseram que era isto
e estão absolutamente todos a salvo, e os que já estavam, e ficam vivos
e o menino não sabe mesmo o que dizem. Apaixona-se, interminável.



tarantela entre a gaveta e o bairro
para a Ingrid

Uma pessoa veemente em forma de frase prolongada carrega sinais dos bairros para os outros bairros, leva automóveis para a casa, tem um barbante enorme de coisas a fazer.
O espelho com sinais das cidades e travesseiros camuflados
o espelho aturdido volta-se para si. O espelho dela carregado faz cidades. E ela carrega os bairros. Não será preciso segui-la, leva-os a força, à superfície e o ar.
Entardece para que deságue, e os olhos com um cais, e sua alma atraca.



tarantela entre dois quartos parecidos
para o Tarcísio

O que queres, o que dizes, o que estás a trazer e a simplicidade com que chegam-te as coisas ao redor. Um nome a cada, um ruído indefectível chama-te a brincar, e tu erras, e tu fazes questão, e esforças-te para errar, um nome a cada, balanças a cabeça e explodes um ruído indefectível, um nome a cada
que giram com velocidade
as paragens e os paços espessos com animais domésticos dormindo
infinitos tipos de talheres sobre a mesa baixa, primitiva, um nome a cada
e tu conheceste todas as coisas antes de chamar.



tarantela entre o quintal e a curva
para o Otto

Aos molhos os mares se arrebentam em silêncio
e tu cerras os olhos para alguém descansar.





Desenho em nanquim de Carla Diacov


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