INSTRUÇÕES PARA LAVAR ROUPA

“pois nada te abandona nem tu ao sono”
Ana Cristina Cesar

"também é para o Julio Cortazar, sim"
Leandro Jorge

Os membros órgãos e tecidos, de tecido, tuas roupas, serão permeados recobertos e envoltos pela água – fazem referência a teu corpo. Porque estou à beirada de um rio e faz-te referência – ao teu curso. O lençol de tão largo, este lençol bondoso, refere-se à tua vida, deita-se e por debaixo de sua derme fronteiriça, como de ti, deita-se o rio a correr, que também a tuas roupas, como a ti, está a vestir. As tuas roupas correm, guardo com os olhos seu caminho sobre as águas e já vão à lonjura horizontal de minhas vistas, sem que eu possa agora então lhes prestar as recomendações. Instalo-me lateral ao rio (as margens como as tuas), meus olhos seguem ao mesmo sentido de sua marcha e eu aguardo, ainda que não se possa vir a correnteza ao contrário caminho, aguardo as tuas que se voltem, indo-se ao norte, a tornar pelo sul, ainda que me corram fartos os anos à mesma direção, voltar-me-ão pelas costas, vindas do oriente, como também tu estás, assim como eterna estás-me a vir.




[quinto poema da série A Mulher da Manhã ou da Noite, dedicada a Carla Diacov]