coceira no canto da manhã

para a Joice e para a Eleonora

também não é preciso saber se estamos felizes
temos um navio em cada mão
já é um costume o que era prodígio
em tê-los
o fato é que o casco se colide há tanto tempo contra a água (a mesma, dizemos) que um dia a manhã se torna filha de nossas mãos
ou o mar
ou o caminho impossível da linguagem despiu isto, e é tão, meu deus, como é claro, faz-nos pensar
como papai é um brincalhão, e engraçado, olha o que ele fez!
mas papai sempre esteve morto, e o papai a quem chamávamos Docéu nunca teve exatamente um cheiro característico ou masculino sobre o qual jamais precisássemos esforçar para crer
já mamãe cheira demasiadamente onde está.
Daí o caminho impossível do idioma (ainda a voz) despe isto, tão compreensível quanto fora claro e, meu deus, nossos navios se fundem com as mãos e a manhã torna-se filha dum estranho invisível
que despe-se para nós
Então nós cobrimos os nossos olhos com a pele para dormir
precisamente onde oscilam navios, grandes navios ou leves, como é claro
tanto quanto fora compreensível
e talvez apenas o pecado dalgumas palavras tenha nos acometido
subscrito no caminho impossível das carnes e dos ossos
precisamente onde os navios nunca tiveram pronde ir
e ficam salvos.
Para dormir.









«Espalha aí para o vento, Barnabé, para quem quiser escutar, que amanhã vou renascer – não tem nada a haver com ilusão de óptica nem com anúncio de ressurreição – simplesmente vou renascer, tão somente assim sem demais nem de menos, só porque me apetece. Sei que não é fácil não ter mãe nem madrinha nesse acontecimento de ressurreição improvisada, mas uma vez acontecido o acontecimento, não há mais remédio, Barnabé, apenas noticia individual, noticia de rodapé de jornal, de coração magoado, apenas anúncio sem importância devida, só importância de vida para quem apetece renascer de novo, amanhã, depois do amanhã, depois da semana onde o amanhã se reúne com regularidade – tão só renascer aqui acolá de aonde é de manhã de dia caducado, de lá ali em todo o lado, que coração dá sempre para enxertar em qualquer lugar desde que se cumpram as teimosias do homem que espera na estação da vida, nem que esteja apenas esperando o comboio na paragem de autocarro.*




Sublinha aí no vento, risca forte rabisca de traçado amotina as letras amplia o grande alçado, Barnabé, que amanhã vou renascer longe, num parto de chuva e sol dia de bruxa que come pão mole, que vou renascer de cinza negro amarelo e blue, mas longe, naquele lugar onde só santo nasce, Barnabé (...) longe onde homem não chega com noticia com fusão com traição, onde homem deixou de fazer contrição e deixou punhal da honra e glória pelo chão, onde só o deserto pisa – aí é um lugar de renascer, acredita Barnabé? Lugar onde homem acredita, acredita Barnabé?»
[...]


(Leonardo B.)