Os filhotes da manhã

É-nos por todos os dias
dado o leito, o pasto
de tuas mãos sobre os arcos
de gestos que narras
com as mãos
É vinda a hora das maçãs
sobre a mobília
a ternura e fragilidade desse século
vindouro
que trazes já a nós
com duas ou poucas palavras de teu idioma
em naus e braços
de aves sadias:
Tua voz tal as lãs ou cabelos
do que foram então mães doutro século
sobre a pele nua dos ombros
nossos, animais
de penugem parca, de olhos filhotes
e magros.
Tão boas nossas avós não queriam-nos
deixar, no entanto,
que haverá de enroscar-nos as partes falidas
e mirras de homem? - avós não são homem
Nem o teu hálito pode-nos
a todos guardar. Tens o hálito
morno das manhãs de teu século.
Os teus filhotes estamos
famintos, mas deixas explodir
num bocejo
outro tempo. Tudo procria demasiadamente
nestes tempos
mas tu conforta-nos com a tosse
familiar
da porta vizinha a este quarto
E dizemos quarto
dentro de teus dedos e dizemos manhã
sob teu hálito. Os objetos prorrogam
e nós podíamos já ter morrido, ou amanhã podemos, dentro dos sulcos enormes
de tuas mãozinhas, ou mais tarde
quando te deitares com a tosse
pelo ainda bem que
é-nos dado aos dias
com o pasto.


[sexto poema da série A Mulher da Manhã ou da Noite, dedicada a Carla Diacov]

outra vez em vez cavalo

Outra vez já cresce a corrida dum cavalo que explode
dois cavalos largos peitos rondam os olhos e os braços
há braços ao mar homens sobre cavalhos
que explodem
outra vez já cresce a lua contra o peito dum cavalo
desobediente e óbvio
com dois nomes para a noite e o dia que escorrem
contra o peito dum cavalo
mais cavalos
rondam largos os espaços dentro vagos da cabeça
entre os dedos e o regaço
mal respiram já espreitam pelas costas dos telhados

como o que vinha vez em vez trazer à casa um costume
doutros dias tão passados de verão tão alvo algures
"coisa brava, coisa brava, bicho enorme"
vai morrer mais um cavalo um filho um lote
de mais terras haja sinos seus badalos
há braços ao mar há luas ao peito há homens há filhos de seus enteados
de mais terras haja sinos seus badalos
outra vez já crescem potros crescem galhos
de mais terras haja terras seus telhados
de mais terras haja terras seus telhados
há braços ao mar há homens sobre cavalos.