Posso agora violentar-te à morte
Dois de nossos homens desertaram
com a paz e o mormaço de teu hálito
bom. Restou-me a maneira atroz de matar-te.
Te esconde de mim em mim e tenta
o bom deus cuidar-te. Vive, mulher,
até que a vida a mim se volte
o bom deus protege-te
vou matar-te.
Mais uns de nossos homens desertaram-se, arde
o sol sobre a curva de suas margens, ardem
A sua mulher arde, soldado, sua mãe
está tão magra e têm dentes enormes
os ciúmes. Hão de desgraçar-me.
Todos de mim desertaram-se,
deita, amor, o meu hálito sobre o teu hálito
E talvez a tua infância deva pousar-se sobre o aço
em minhas mãos. Dorme meus ossos,
posso quebrar-te.
Nessas dunas, amor, as nossas costas
doem, nossos faróis, aparvalhados os
nossos desertores enterraram-se sob a calma
dos nossos nós.
Podes voltar-te a franzir as grossas ondas de teu mar
qual já outrora transcursado
pelos prazeres que não meus, e outros braços
há que passado. Tamanhas as águas derramam
sem fim. A mais desertam-se de mim
as almas doloridas, os bichos amargos,
Hão de deixar-me. Podes voltar-te aos grossos
cílios de teu vale, enterra-nos sob os sulcos largos
para dentro
e abaixo
dos nossos nós. Há guerra em mim
há água em mim
as cores da tua rua
e este céu, meu amor, tão baixo.

[Poema publicado na Revista Ellenismos [Ano II, No. 23 - 2012] AMOR E REVOLUÇÃO]