Pensas num bocado de homens

I
A sobrancelha
em tua testa, uma lagarta. Querem dar-te o tijolo e as asas, ensinam-te a palavra, e o
tempo acaba-se com a noite
a cada noite que acaba.
Um bocado de homens trabalha, queres comer e com a tarde ir pingando
para dentro da tarde. Um bocado de homens pode cansar-se ou mastigar os talheres
ao invés do feijão
enquanto tu contorces a sobrancelha para o alto. Pedes perdões pelas demoras
e o amor em demasia, pedes para que os homens façam
o que de ser feito tiver-se.
E dói pensares em homens, a esta altura dos braços, das mãos em demasia, a tudo se vai
mastigando, mal sabem os homens, querem não morrer, querem nem a vida, a tudo se
vai lambuzando, com o tijolo e o medo
que arrebentam-se contra a parede.
II
A palavra tijolo e a palavra medo estão em mais de quarenta maneiras
inscritas pelas paredes
e sobretudo a palavra demasia
que pratica a culpa acerca do vento, pousa sobre o objeto mãe, cama, cachaça, sobre o
objeto galinha, e que arranca tua sobrancelha para cima
faz o bocado de homens funcionar, a beijarem
as portas ao invés das suas filhas.
Esquece-te, queres deitar a lagarta
sobre a testa macia. Vai-se a tudo mastigando, respira, dentro do muro e sob o mar,
perdoai a vontade do fumo, a vontade do sono, a vontade da vida,
perdões pelas demoras e o amor
em demasia.


[Poema publicado na Revista Ellenismos [Ano III, No. 25 - 2013] SERTÃO]]
[oitavo poema da série A mulher da manhã ou da noite, dedicada a Carla Diacov]