o homem que não morre

para o Raul Macedo, que não está morto.

quando um homem está morto, resta-lhe a vida, em vereda, e sobre o longo da poesia sempre se está a chover, quando o homem finge estar morto, seu esforço involuntário é a chuva, a chuva sobre a mulher, especialmente, que o rodeia
daí por diante todas as casas são a mesma
se há o deus diante dos homens que vivem dentro de casas isso vai ao mesmo receio sob o qual se não quer compreender a ventania e a movimentação obscura das pernas infantes a crescer
todos querem a morte com ele e a vida
a fugir-se vivendo, todos pensamos partir feitos em pedaços às valises de quem vai-se a morrer, para a vida
quando um homem crescente morre, as mulheres constroem unívocas um abrigo comunitário com a sujeira e o desleixo necessário de quem carrega o amor
e se há uma ventania dentro das valises, o homem sequer pode seguir
pensemos, os homens protegem-nos com os pelos do rosto e com a arquitetura errônea dum relógio, principalmente, uma vez que de sua invenção resta a improvável falha de seu corpo
pensemos, quando dizemos mulher dizemos daqueles todos que se ficam
dos cães, inclusive, por causa das maneiras como se dedicam a dor e o emagrecimento
sobretudo quando um homem é tão novo e supostamente o mais amável entre os tolos (sabem, os tolos nascem com vagar)
envergamos de tepidez e de candura
e morremos mais pela vida
que pela surdez e cegueira alvejadas, que pela ignóbil continuidade dos automóveis, das fachadas que se pintam, dos colos que ceifam, vez ou outra, antepondo ao almoço e jantar
algumas tarefas são agrestes quando ele está morto, essas são o comer, o cair sobre um estúpido poema (todos o serão em absoluto) e o conduzir os olhos ao teto antes do dormir
algumas tarefas são dulcíssimas quando ele está morto, essas são violentar incessantemente a morte, derretê-la, humilhá-la, apodrecê-la, cuspi-la, comprá-la e vendê-la, despi-la e cozê-la ao fogo brando
algumas noites esquentam do lado esquerdo e ao direito esfriam
e se houver nevasca dentro das valises
ele há de rir-nos, inolvidáveis, tolinhas, sobre o longo da mulher e da poesia não se pode acabar a chuva
sob ela nascemos
sob ela jamais morreremos
sob ela o homem vai e volta a despeito de morrer, inolvidável, tolinho, ao vagar do teu nascimento quebraremos os teus poemas
em mil a milhões de faíscas, de alergias estelares, de instabilidade cardíaca
em mil a milhões, como as bocas, nossas bocas beijam-te inúteis, teu corpo calado, teu rosto insípido, teus cabelos sobre os mil ombros
que mulheres envergadas penteiam
de tepidez e candura
a morrer, todos os dias, mais pelo desfeito da morte
que pelo feito da vida
e se houver aurora e suor dentro das valises
ele vai mais para adiante
ele vem mais para dentro
o homem que morre está antes
o homem que morre é alento




eu pedi-lhe que antes

para o Raul Macedo.

nunca chove no ceará
assim
disse a nina. E você sequer não tinha
idade para isso, que faz-nos a boca mover
sem o movimento preciso, sem ser boca a mover-se.
Deve nem ter lido a tese que lhe pedi leia, que lhe pedi goste, que lhe pedi não morra, ordinário, não morra e leia a tese antes da vida,
que mal havíamos nos dito "ah, sim, saiba, raul, foi um grande mal entendido"
nos havíamos iniciado a entender há tão pouco!
Pediu-me que lhe enviasse algo que não fosse o seu querido Blanchot, as coisas como o suor
escorrem com a força
desenxabida.
Pedi-lhe conheça mais Antonio Jardim, pedi-lhe goste, pedi-lhe não morra, conheça-o antes da vida.

E você sequer não tinha
idade para as mortes
das quais antes já não morrera,
e você sequer não quis
a mulher que eu tinha, dizias ela ri-me todo, não quis sequer
que nos arranhássemos, e rimos
nós rimos, bem ainda que antes
da vida.