o cão mestiço

Teu trânsito na manhã caudalosa
preste à vinda demora tua aparição breve vazia
teu rabo
a demorar-se ignóbil enquanto tu
pareces já nem ter havido neste chão
por onde arrastas
teu cume e declínio na manhã

como pudesses com as coisas que me agitam e adormecem as pevides
como se valesses um bocado ou dois de unhas
um saquinho frouxo de sal
a ponto de esmagar-me com teu cenho o caramujo e a casa
do pobre caramujo
que intenta ao chão com o visgo um jaçanã

como se valesses os teus olhos, que rasgados
às margens infinitas da direita e da esquerda da planície amarelada de teu rosto
entrecortam os gases ou estilhaçam
as pelancas esquecidas do ar

como se dissesses o que dizes e rompesses
os tratados dimanantes entre os homens
únicos verdadeiros de sebos e suor

tua caudalosa passagem na chistosa manhã -
imundo sobre o pasto absorto que sustenta a passagem de importantíssimos quadrúpedes
um apito de plástico cego,
o ruído dos objetos,
a goteira na casa do caramujo,
há de morrer sem nome por teu direito
irrefutável e sadio
de agravar-te e sumir.






Grata sempre a Bandeira pelas pevides, das mais belas palavras que tenho sobre a língua.

exercício vazio número um

Dum escampado quanto há
na sola das mão
farpa musgo ranço calo colina
o bicho mole estirado o sol sobre as linha
da sola escampada das mão
deixo os olho cair estiro o beiço e como
estiro o beiço e durmo estiro o beiço
e respondo cos ombro a cabeça balança o sol novamente o estio a latrina
estiro os olho deixo o beiço cair dou de ombro pro sol respondo que sim quero comer que sim já é hora que sim não deu jeito que sim hoje é dia que sim não agora que sim mais um pio a razão vai-se embora que sim mais farinha
deixo os olho cair sobre a sola das mão
vejo o rastro o ranço o mato nas linha
deixo as hora cair pra detrás da cabeça
eu era pardal meu irmão me adestrava
eu era peixe meu pai dizia dois nome em latim
eu era cachorro minha mãe afagava
eu era cabrito minha irmã ria
era nada era nada
sem mim vai o mato sem mim vai a cana sem mim vai o doce infinito o queijo a pinga
sem mim estiro o beiço deixo o sol cair meus olho de bicho tristonho sem mim carpia e cuspia infinita tardinha
'ques mão egoísta que hora mais besta
que desgrama
ê, ladainha'



Vara

para a Nina Rizzi

A poesia – dir-se-ia,
permeia aos sulcos vultosos da alma –
em verdade é um porco sadio
róseo-encardido, infiltrado e só
no vulgo e multidão de nossas avenidas
Vai e os homens bradam seus brados
sob estandartes, e o porco
não podem (a tudo) mirar
Vai e seu médio correr sobre as pernas
desajeitadas leva o então rechonchudo
contra o qual é possível precipitar-se
o andar desenvolto do homem
e por vezes fazendo-nos chocar
contra as britas os dentes mais alvos.
A poesia – dir-se-ia,
sob forma feminina é um colo divino
sobre onde o poeta repousa
sua orelha macia –
em verdade é o arranque prematuro
que abandona a orelha no ar
e esta acaba-se por estatelar ao primeiro sítio concreto que exista abaixo de si.

Bem-aventurados aqueles que danificam seus corpos
em virtude do gordo animal –
deles será o reino dos mares, das musas,
o reino da solidão e dos porcos.