exercício vazio número dois

meu peito
quis adentrar
induto perene
e para fora eu ia

ou nele
há tão largas janelas
que baldia
ao que mais se me enfiuço
mais se em desterro desfia

de dentro, nas ruas, do peito,
onde lado fosse, se viam

funâmbulas mães, funâmbulas vidas
sobre cujas magras varinhas
tesas balouçam balofas
senhoras sadias

não sei se em dentro ou em fora
essa vista

mais, ainda

ríspidas galhas, gralhas famintas
sob cujos sombreiros homens
duros e pretos volviam
cascalho bulhão farinha

não sei se em dentro
ou em fora
que via

e, ainda

panhonha esbelta qu’em caso de vida
ou morte furtava só frango, dizia,
em cujas sacolas já chispes corriam

não sei se dentro
se fora
se avistam

casacas felpudas vagando sozinhas
trás de cujas costas gemiam
moribundos filetes de carne fria

em dentro não sei
nem se fora
meu irmão fez-me convencida:
melhor desvendá-las que vê-las
as paredes, tocar, as fissuras

tateando-me-as às escuras
mais vendar pareceu-me fazê-las:

se mais que as de dentro têm veias
tão mais que as de fora são duras.