do que pode a pouca idade - I e II e III

do que pode a pouca idade I

Um fato absoluto: o trinco grande de trancar o portão. O trinco absoluto: ergue-se a alça, move-se o trinco para o lado esquerdo, baixa-se a alça. "Tem que ser feito com barulho, se não, não tranca", não assemelha que trancou. Fez mais duas ou três vezes pra assemelhar que trancou. Fez mais oito ou nove por causa do barulho "tem que ser seco, bravo, não alto, nem baixo, se não, não é trinco", não assemelha que trancou. "Daqui do portão praí, hoje, o caminho dá prum livro!", socou o cadeado de uma única vez, Papaiz, "agora vê se não é trinco".
Dali do portão praqui, hoje, o caminho era essa estadia. "Não pi-se na gra-ma. E se ela gosta? Tem mulher que gosta!", ela devia não envelhecer, "o chão é que precisa gostar, coitado! Eu, não. Vê se tenho cara de chão!", uma elegia absoluta: o chão deveria envelhecer sem ela, antes, menos ela devia conter tempo, o resto que corra esmorecendo, a parede encostada nela, menos o tempo devia contê-la. "o cadeado deixa a idade entrar?". Papaiz. O cadeado que o resista.
Dali do portão praqui, hoje, o tudo já havia acontecido, perdera-se notícia, já se havia a vida passado. Quando chegou aqui perto, fez-me abaixar, era ainda uma coisa pequena, alcancei-a com o ouvido "agora o senhor vai lá e vê se não é um trinco".
Fora da cabeça, tudo era pequenino. Tudo não terminava.



do que pode a pouca idade II

"O senhor vê se eu tenho cara de besta. Faltou o cachorro verde aqui, do lado direito do potinho da esquerda e do lado esquerdo do potinho da direita", reiterava a ordem dos potinhos. Os pés estavam alinhados, descalços, irremovíveis. Os pés esticavam-se, alcançava a estante, os potinhos "faltou o cachorro verde", reiterava a ordem dos livros. O cachorro verde não existia, "então faltou o cachorro verde no mundo".
Nada faltava ao mundo.
A esta altura, a estante desacatara, faltara-lhe tudo num susto sobre o chão. Os pés nem se trocaram de lugar, nem se abismaram, era sabido que viria tudo quedar: a ausência era grande do cachorro.
"Agora vê se com o cachorro isso acontecia", reiterou a ordem do mundo.



do que pode a pouca idade III

De manias cheia, tinha método, de primeiro se puxa, assim, essa cortina, depois mede caminho ao interruptor, apaga-se, só no último, a última luz. Só mais ninguém não via, ela agora sem contorno "agora que eu não tenho contorno, uhááá, eu sou qualquer coisa!", só mais ninguém não via, em todo objeto ela se transformara. Não encostava em si mesma pra não perder a linha do desenho, o tato era burro, cego no escuro. Só a visão que era astuta, que ela vinha inventar "vê se eu não sou uma maleta roxa com um código de barras borrado? Se o senhor não vê, não pode me enganar que é mentira" e a sua alça pesava essa realidade intocável: e se ela fosse sem pensamento, era capaz de virar a coisa que achava. "cego não tem contorno? Pode ser tudo?", mas a gente via o cego, quem estraga a fantasia dele somos nós, "nós nada! Bobo da gente!".
Cansou-se de ser coisas quando caiu de cansada, depois da luz acesa, ela ainda era uma coisa pequena. Não perdera o formato, as cores estavam suas.
Ainda antes um segundo do pacto com o sono "agora o senhor vê se eu preciso ou não sou um baú".
Fora das pálpebras, tudo era de mentira. Tudo não contornava.