instalação ultrarrealista para corrimento das águas

casca cima de casca
há té saudade de ter saudade
hoje é só coisa adiante
coisa: tudo que é sido cabe
ou tudo que não só não há de
ter havido, podido, ido
casca cima de casca
pronde olho é isso e aquilo
ninguém há comovido
manhece tão todos vestidos
casca cima de casca
nunca foi minh'alma
que o pintor desvelava
quando buliu-me toda
cavalo em cima da casa
casca cima de casca
II
alguém aqui já mataste?
nasceste praqui matar?
dar cabo da dor dagonia
duns quantos que se vendem
ao matador ou se dão?
já compraste com ouro
a parte da carne e do osso
que deram chamar de alma?
já furtaste? já pariste? já chegaste
a ver-te de longe? tens pena?
chegaste cedo, chegaste tarde,
há coisas na hora que já não valem
mais que a esquecer a que hora
chegaste. A nascer perguntaram
a que horas? Falaste
tarde.
III
ao fundo da igreja sonham
terminam a reza 'amém'
depois o menino 'ah nem'
mataram-no a paulada
ao fundo da igreja sonham
terminam a reza 'amém'
depois a velha 'lá vem'
mataram-na esmagada
ao fundo da igreja sonham
terminam a reza 'amém'
depois a cambada 'vintém'
desceram-lhes a porrada
IV
casca cima de casca
sonharam estranho caso
eis que tal mulher dalgum jeito mal entendido de chegada já mal explicado que por terem lá dito que de mau algo se tem dito que levou sobre ela a pensar num pensado que talvez tenha mesmo o feito dela sido e se não tendo enganado aqueles que dalguma maneira não se conheceram jamais se olharam de olhos mas assim confiaram justos em decisão de tamanha importância tendo alguns já esquecido do que tenham talvez e em possível instância falado
de tudo é sabido e entendido
que pegassem a tal mulher
arrebentassem-lhe os lados
matassem depois dum bocado
de prazer que o porrete tem dado
fato dito e breve passado
semana que vem vem outro
dizem que dizem que dizem que é este
tá feito merecimento
vai morrer da boa porrada
mas casca cima de casca
ninguém sente dor nos músculos
morreu mete o pé pra casa
que tu vivo já não tarda
que mereças se disserem
boa chuva de machadada.






cerenô gaio


 para o paco de lucia 


Cueva del Gato
seu ruído anchos
veleiros rasgando
meus paleios anos
meu hermano chora
seu irmão chorando
quando vim, cê quando
foi, e nessas horas
só pele ribomba
só corda que estoura
quem nasce demora
quem morre arrevoa
mas chora a viola
que co’a vida toa
e se é triste chora
e chorai se é boa





da topada no ar que é duro

a ninguém, nunca


O rinoceronte que se extingue
sem ter morrido, ou um pardal
que por irreverente decreto só daquilo poderá comer que se tenha sido feito por mãos de irrefutável senhor a quem o pardal
espera
por saber ansioso se existe.
Ou um par de formigas velhas conhecidas
que se rompe pelo bem de que o mais que se queria
poder é que se não rompessem.
Ou tão ainda uma forquilha
antinatural, que tendo sido aberta a mão, bifurcada de tão fina já não serve
pra estilingue.
Hão de morrer rinoceronte, pardal, formiga
e o menino do estilingue
terá de arrumar serviço.
Mas tudo que já não os era
volta-se a suas horas
dá cabo de seus vícios.
E morremos todos de termos sido
aquilo que de não querer
morrer tem-se vivido.