a palavra mãe a palavra vamos

para carla diacov

o curso infinito
das nossas águas
sob os ancinhos e a chover
nas várzeas
corríamos com violência e nos víamos
co'a ansiedade dum filhote que suga da teta
pra caber no mundo
os ossos doem
em crescer
era verdade
que nascíamos juntas era verdade
que juntas morreríamos
a verdade eu sei é tamanha
em quantidades
alguém na esquina não saberá dizer
nosso parentesco
eu não traio ninguém ao dizer
que ainda nos pertencemos
o idioma em que dizes chão
mo emprestaste e me curavas
dum chão demasiado
e a palavra mãe e a palavra vamos
vão permeadas ainda
do teu nome

alguém na esquina estia
não nos acenemos
o adeus é tão bobo é sempre hora
dum filho ter medo

até aqui me geraste agora dizes o mundo
é teu
é preciso atravessar
uma pedra de gelo
enfia tuas mãos nos bolsos
não nos acenemos

é preciso ensinar aos amigos
o meu nome verdadeiro
descobri-lo do teu e ao teu
deixá-lo descansar
nas bolsas gordas dos meus olhos
é preciso tomar da água
com essas míseras magras mãos
que sempre teve meu corpo
não é o teu corpo
a me carregar

descolemos as nossas horas
alguém numa esquina te chama
e a mim chama noutra alguém
não tenhamos medo do sono
guarde tuas mãos faz frio
não nos acenemos
é preciso amar outros nomes