sturdia

hoje no bocadinha ninguém fala ninguém liga
que o vargalosa sumiu
sonhei que a eleninha m'embuchava d'ua menina
ninguém liga o vargalosa deve estar bebendo algures
ninguém liga pra menina que hoje cedo eu não pari
ninguém fala algures no bocadinha
fui pra beira do biloca um fedor de carniça
caçar uma palavra pra falarem pr'eu ouvir
no bocadinha falta palavra assim pra quando
quer dizer assim que onde
é n'algum lugar assim
e se eu achar o vargalosa
e se eu achar minha menina
volto do biloca sem palavra
e digo pra eleninha
que por enquanto
fica algures
e calo


artaudiana para ...



tens os olhos alegres
tristes
'tudo que age é uma crueldade'
a porta já sendo porta atrás de ti
e daqui tuas costas tão bonitas
- o drama do teu corpo no além-porta
é real. o invisível
só o gesto sem teus olhos é deserto
alegres
são tristes
'esse teatro de quintessência
onde as coisas dão estranhas meias-voltas antes de voltar
à abstração'
a verdade como aspas chuvosas
nessas terras de portas
ao teu silêncio é ode
amor.

dicumê

mulher
em torço
a cabeça gira
precisamos comer

temos um bocado
nas mãos é pequeno
o tempo em que partilhamos
silêncio

hoje é
sempre foi
outro dia
amanhece mulher
precisamos comer

o dia se arrebenta os automóveis
os códigos inúteis da linguagem
se arrebentam
pra comer

mulher hoje a saudade
levou-me aos molhos
dum mar senfim de mil membros
batem-nos quaram-nos estamos
miúdas
precisamos comer

a hora de rir é tão grande
na varanda gelada o meu peito
mordia sua mão
não teríamos casa tão limpa
quanto aquele lugar
somos pobres
pequeninhas

a hora de te ver
de ter te visto
que horas agora

tão longe
sua morada
telefonar é difícl
haver hora é difícil
viver
precisamos comer

optaremos então certamente mulher
pelo trabalho das mãos
de comer com as mãos
e com elas tecer
e com elas correremos uma maratona
para cegos
que somos
amor
não há alimento no mundo
não há alimento no mundo
não há
escuta
as tuas mãos
seguram a hora
de morrer

você diz
tanto e ama
o que diz mulher
não mastiga
é calhau




oculus finda

aquele dia do passarinho na enxurrada quase morri
filho dalguém sentia frio ia morrer molhado sozinho
o mundo é grande meninos doem também eu não vi
abatedouro mulheres ganidas as voçorocas
eu não vi
a qualidade da comida feder mijo na beira do biloca
no bairro das pinhas
o lixo o abricó que clementina
cos dedos puía
eu não vi quando meu irmão se espatifou pela escada
seu braço esquerdo eu vi só seus ossos fazendo ilhas
quase morri
eu não vi o sangue da clementina afogar o abricó
na beira do biloca aquele dia
eu vi o filho dela de maldade esmagar um passarinho
pobre niño
quase morri
quase morri sonhando que voava de balão no bocadinha
saindo do bocadinha eu vi o gerson de cima
pra igreja co'a bíblia fedendo a família
o gerson não quis pitú aquele dia
quase morri
na quartafeira foi greve das moças
os homens desceram o biloca das pinhas
chegaram em casa lastraram dolores
que eu não vi
o mundo é grande os músculos doem
os mortos ambulam eu não vi
eu não vi o deus me cegando vinte dias atrás aquele dia
aquele deus lasso enviesado me fez um trabalho que eu não vi
vinte dias que vem m'assolando
que vem m'assolando uma urgente
vontade doente
meu deus de parir

03.08.214



você tem que ir embora
nossa manhã doentia
já recobre
o cais


tudo são partidas e estio
a maneira como digo frio
te arrebenta o queixo e mais
queremos morrer
viver


é tão tarde


vamos trabalhar
a comida o pano que cobre
o ar
é tecido
e ninguém nos espera no cotovelo das coisas


quando mastigar pense
que mastigamos todos provavelmente
em segundos diferentes
e respiramos
olha


vamos morrer em instantes o mundo
é tão grande respira
parece um sonho
respirar


a menstruação o bico explodindo
dos peitos
a borboleta preta que acaba de entrar
tudo são mulheres aflitas
somos mulheres
aflitas
temos mãos
enormes
e mães


nada há que alimente



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