16.10.2014

todos os sonhos são seus
escuta
um coração bater balouç'a água
da sua cabeça
três meninos morrem ao sol
são os seus sentimentos c'o mundo
'meus pêsames, senhor deus, meus pêsames'
nem reconheç'um'assim sua voz
afogand'os espelhos
castigados de luz
mas os sonhos miúra
os sonhos
todos são seus e os sons
são das suas ferrilhas
e miúra nossas filhas
são maiores que nós
são enormes
tenh'uns sonhos seus vez ou outra
e num eu fiquei tão bonita
que m'emocionei
cê me dava seus peitos e ria
eu bebia seu leite miúra
e meu leite enxurrando nas ruas
fez as gentes ter você sabe
um medo contente da vida
miúra que tolo é sonhar
basta que nos deixemos
sair sem a paga
a comer não nos obrigaram
a dançar
a ter sono
não sei que digo iss'é isso
mas um lugar mudo
u'a marcenaria
um quintal
e seus sons
seus sons sossegand'a horta
um morrer sem lugar
mas miúra se nos amamos
três meninos morrem ao sol
é preciso compor um lamento
co'a palavra mar
maior que muro
co'a palavra murro
maior que dar
mas miúra nosso amor é grosso
ter sangue só já não basta
e aind'é tudo

14.10.2014

miúra olha minhas mãos
temos um amor grosso
com largura nosso sangue
corre e uns modos pequenos
de sentir dor
de pensar ao longo
c'uma gorda laranj'a
podrecendo nas mãos
miúra nós já passamos
todos aqueles diabos
que o mundo diz é preciso
dar cabo das coisas
ganhar viço
você diz er'aquela fome e o frio
e o calor um inferno
pass'ao largo balançand'as mãos
você sabe
dalgum modo estúpido e úmido
tudo se tem feito graça
aqui
que graça ter corpo
tomar porrada
mijar de manhã
nossos ossos teimosos
dormem mais que nós
miúra hoje vamos
deitar no chão mesmo
e tocar c'os mamilos
no piso gelado
e chorar de prazer
e de medo do gozo
e de culpa talvez
miúra me dá seus peitos
e vê minha testa franzida
e sente dó
esse mund'é tão grande
eu não sou ninguém