13.01.2015

miúra ninguém sabe o que era
acordar às manhãs de quando
comer inda não fazia
matar-se todo
miúra nem nós sabemos
comemos pouco
mais nos matamos
mas vamos miúra vamos

ellena - décimo sexto diálogo

o lugar
amolece
são casas
grandes
alagadas
há cem ou dois
mil anos
chove
as paredes
coalham
então se tira
alguém
de sua casa
há que se cuidar
dos pobres
diabos
que não moram
não ladram
os tetos
alinham-se
você tem
o algoz
nos sapatos
há trinta ou dez
mil anos
chove
alaga
a perda das consoantes
nas línguas
é inevitável
os tempos
são outros
os nomes
outros
os homens morreram
as mulheres magras
a queda
da consoante
intervocálica
é um jeito físico
de evolução
as casas coalham
as botas
ensopadas
você traz um algoz
nos pés lassos
o derretimento das solas
sobre as águas
é inevitável
as horas
nunca se acabaram
morre-se
antes delas
antes
o que havia
era um regime
de mãos
que se apiedam
mas cerram
e passam
homens mulheres
eram tirados
de suas casas
havia um lugar
que se prometia
alojem-se hoje
nas águas
há cinquenta ou trezentos
mil anos
que chove
e o torno
democrático
das águas
dispõe-se a todo
cidadão de bem
e de não tão bem
se alegra e dorme
nada se faz
contra a água
há milhões
mulher
de anos
que chove
e a cidade
coalha
as suas mortas
velhas
frouxas
ensopadas
roupas se vão
o derretimento
das oclusivas
consoantes
em molhadas
é inevitável
um jeito físico
e lenitivo
de evolução
as costas
das suas costas
sob vogais
recuadas
baixas
baixo das águas
suas costas
nas costas
coalham

08.01.2015

pro nícollas ranieri

aquele dia você dizia
ter lido
ferram-se casas
constroem-se cavalos
aceita-se troca
quer-se dizer
de fato
era com essas coisas que podíamos
nos preocupar
meu filho
há nomes pra tudo
você sabe
nunca foi disso que falamos
cuidamos da ideia ancestral
de que os objetos no mundo
dalgum jeito e num modo
sequer propício
sentem um certo alívio
quando não vamos falar
e quando não usamos
aquela preposição
que supõe
uma ideia de coisa
ou uma quantidade
a convenção dum número
ou da escala diatônica
essas escolhas que por qualquer acaso
vêm nos acometendo
e às vezes calhando
esquecê-las
você dizia
meu prédio vem vindo
é preciso entender
a pedra que soluça
é só com o que temos
de nos preocupar
um dia você se pegou soletrando va ga ro sa men te
seu nome
e não atendeu
nem soube dizer
se aquilo era aquilo
o mais importante
foi termos um filho
sem nome
e tivemos
sem nome
os antigos diziam
ser preciso escolher palavras
quando ainda se é bem jovem
e esgotá-las as roupas
puí-las
até quando for o dia de morrer
não sabemos se das palavras ou daquele que as diz
mas o vocabulário ideal dum homem
limita-se às partes de seu corpo
que por ventura e inevitavelmente
tendem a mudar
de nome
quando em contato com os ares
disso ou daquilo
especialmente das coisas
quanto às quais não devemos
cuidar
era só ter dito meu corpo de quantidade variavelmente suposta
não acorda nem dorme
meu corpo diz
como quem vacila a vontade
de ter corpo
era só ter dito meu corpo quer dizer cócoras
meu corpo quer dizer fábulas
meu corpo quer dizer cátedras
meu corpo quer dizer suponha
que seu nome
fosse um ruído mais lentamente
pronunciado
e que isso que diz ser o seu nome
em verdade
fosse nome
doutro corpo
um dia você se pegou pronunciando seu nome
esperando outro nome
atender
até hoje

08.01.2015

miúra nós não sabemos
dramatizar co'esse mundo
as ruínas sobre as línguas
mas vai tudo bem
e dizer
só podemos dê-me o pão a bebida
e pagar
e comer
e beber afinal dizer boa noite
bom dia
quer dizer dê-me o pão
meu senhor a bebida
e pagar
miúra nos tire do mundo
mas está tudo bem
mas miúra não podemos
dizer mais que tudo
ou menos que isto
não podemos dizer que há coisas
mastigadas no pão
e que os braços
buscam tão longe
não o gesto
só a voz que não rasga
um farrapo qualquer
da história puída do mundo
a voz que o pão
não abraça
nem mastiga
mas bebe e miúra
nós vimos na saliva
tamanha linguagem
e no silêncio forjado
na maneira estúpida qu'inda temos
de mexer os braços
e pedir pelo pão a bebida pagar pelos braços
miúra essa vida
está tudo bem mas não há que podemos
dizer se vier-nos
deitar à cabeça
lembrança qualquer
do que é mesmo qu'existe
basta miúra
que façamos o gesto terrível
de comer
ou dizer e é pior
se dizemos
é pior se tentamos
gesticular
então vamos morrer nos teatros
ficar morrendo miúra e olhando
os olhos uma doutra
e ter preguiça
de tocar as ruínas
de compor um cancioneiro uma história do mundo qu'explique
a palavra isso
ou aquilo miúra
ou está tudo bem

08.01.2015

parajoicemarceloericaguilhermezé


e soment'essas mãos tardias de nossos corpos
vão a lá saber
de que é um parélio feito
e de que trataremos a quando chegarmos
pois a lá vamos chegando
em depois das mãos e comemos
enormes
co'as mesmas mãos
tardias que temos
e saber podem lá que ainda
nem meninos somos nem nada
temos um cado a dizer mas as mãos
antes nos trazem
aladas
e dizem saber lá de que se faz
um parélio um cacho
de dentes sadios
ah o dia em que teremos há de
chegar e seremos um corpo
de dentes sadios de viço
e vontades órfãs que afinal já as temos
que é só do que tratam tardias as mãos
que nos parem aos montes meninos
nós ainda nem somos e um bocado enorme
de cois'a falar
temo só que nos venha um di'atracar
um ataque de cócega então pobre mundo
se vem a rachar
a trincar mil pedaços dar cabo de tudo
num gozo de mort'uma morte solar
de que é feit'um parélio
uma rua
cidade ou canteiro
inundados de mãos que não somos
nem meninos ainda

08.01.2015

para magnina

tinha um jaguar hoje de manhã
sob a pele do pescoço
o seu
tinha uma veia mais que todas
do jaguar
pulsando um sangue custoso
sob a pele do pescoço
o seu pescoço
guarda um jaguar
dormindo louco
hoje a manhã de cabeça pendendo
um pêndulo bêbado
me envergava e eu sabia
que era preciso correr sobre a cama
encontrar os dias
que dormem conosco
eu toquei o jaguar com dois dedos
sujos
e abracei sua casa
e cheirei o seu corpo até o fim
eu toquei o jaguar e a manhã arredou-se
e arrepiamos ao ouvir
a palavra trabalho
é tão frio tomar o dia nas mãos
e apertá-lo
c'os dedos sujos
e dizer são horas
e arrepiamos ao ouvir seu jaguar
me dizer vai embora
as horas
querem passar

ellena - segundo diálogo

agora nós nos amamos
o sol grosso nas cigarreiras
amolece a vida dos homens
e o trabalho
(gordurosas horas)
se confunde cos braços

agora nos dizemos vem elleninha
me faz umas três meninas
já me pôs lombriga feijão na barriga
que custa m'embuchar duns mais

eu sei o mundo está cheio
de ruídos sem mãos
mas é tarde
pra dizer ao outro

que quando anoitece vazias
cremos também no silêncio
temos calor
respiramos

na verdade a idade
elleninha em qu'estamos
tem o cheiro antigo das mães
e já não é muito que queremos
da vida

um pouco d’água em seu lado
e qualquer medo forasteiro
vez ou outra vir à casa
nos distrair

e já nem procuramos
a palavra que toa
com o sol fatigado
dos nossos trabalhos

a palavra que toa
c'os pobres que bebem
sob as cigarreiras
que riem magros

a palavra que toa
co'a estúpida tarde
que deixou roubarmos
no supermercado

a palavra que toa
co'a infante manhã
a pedir que comamos
que mais hoje comamos

a palavra por fim que toa
co'a impressão infinita
de estarmos todos
já condenados
e estarmos todos
já perdoados

e estarmos ferro
e estarmos cana
e estarmos pedra
e estarmos lassos

e de estarmos salvos
elleninha

porque danados

elleninha são só três meninas
e seremos pra elas
nossos quatro seios
donde vão sugar

e há mais mulher
temos braços




[publicado no blog da confraria]