ellena - décimo sexto diálogo

o lugar
amolece
são casas
grandes
alagadas
há cem ou dois
mil anos
chove
as paredes
coalham
então se tira
alguém
de sua casa
há que se cuidar
dos pobres
diabos
que não moram
não ladram
os tetos
alinham-se
você tem
o algoz
nos sapatos
há trinta ou dez
mil anos
chove
alaga
a perda das consoantes
nas línguas
é inevitável
os tempos
são outros
os nomes
outros
os homens morreram
as mulheres magras
a queda
da consoante
intervocálica
é um jeito físico
de evolução
as casas coalham
as botas
ensopadas
você traz um algoz
nos pés lassos
o derretimento das solas
sobre as águas
é inevitável
as horas
nunca se acabaram
morre-se
antes delas
antes
o que havia
era um regime
de mãos
que se apiedam
mas cerram
e passam
homens mulheres
eram tirados
de suas casas
havia um lugar
que se prometia
alojem-se hoje
nas águas
há cinquenta ou trezentos
mil anos
que chove
e o torno
democrático
das águas
dispõe-se a todo
cidadão de bem
e de não tão bem
se alegra e dorme
nada se faz
contra a água
há milhões
mulher
de anos
que chove
e a cidade
coalha
as suas mortas
velhas
frouxas
ensopadas
roupas se vão
o derretimento
das oclusivas
consoantes
em molhadas
é inevitável
um jeito físico
e lenitivo
de evolução
as costas
das suas costas
sob vogais
recuadas
baixas
baixo das águas
suas costas
nas costas
coalham