22.02.2015

para montenegrita


sentar num banco de pedra
o corpo infesto
de ouvidos de olhos
ter medo da faun'escura da hora
os homens podem querer teus pés
levá-los
sentar o corpo num banco de pedra
frente aos patos ignóbeis
que jamais se interessariam pelos postulados que inscrevemos sobre a pedra dum banco de pedra
mas se comovem e explodem
se fundo nos olhamos
sentar e ter gozo em trocar
patos por gansos ou cotias o mundo
não quer de nós
que saibamos seus nomes
e menos os nossos
o mundo não quer de nós
nada e vamos supor que um pato tenha nos acometido
e que pensássemos nele
com miúdos pensamentos
é duro inscrever-se nessa pedra montenegrita
cravar-nos aos sulcos verter toda alma
ao lado oposto da pedra
montenegrita
vamos supor qu'este banco não forjasse um'aldeia
aos jardins cheirosos dum condomínio
e que lá dentro felizes dormissem
os homens
vamos supor que não saibam
que nos devoram e fartam-se
do absurdo que não temos
um menino assombrado levou teus pés
e ciscou com eles
e nós rimos e o imitamos como por amor
aos meninos horríveis
de quem sugamos
ainda era carnaval e já falávamos sobre a pedra
montenegrita talvez seja mais delicado
que deixemos o todo de lado
tais palavras duras
e olhemo-nos fundo
e tu te entr'em meus olhos e dorme
teus dez minutos de fuinha