09.03.2015

miúra foste só
o barro maior em que m'estive
silêncio voz aluvião
no mais o peito
todo edifício
desfaz-se ou nunca
sequer havido
empoeir'a cidade
um cão s'espreguiça sobas cinzas
é como ter dito
miúra é lindo
morrer contigo
mas deix'o bicho
sumir em paz

há vinte séculos
no centro dessa pedra
ruído enorme
trinca-m'os ossos
espera do teu nome
língu'absurda

oração

eu beijei montenegrita uma mulher linda
na escadaria desta igreja
não me podes violentar a cabeça ou os braços
ou os desejos tu não deves fazer
mesmo que por esta igreja
o deus é horrível irmão
deixa que ele morra e desmoronem todas as suas casas
não pode ele imaterial ocupar tanto espaço no mundo
tão pesados os braços
há pessoas dormindo no inferno
ou chamemos isto de ruas
eis o mundo de tuas mãos
o homem tão alvo viajando com sua família
tira-nos o prato de frente da boca
este é urgente que morra
ainda que sem sofrimento
que simplesmente não exista
mais que só deixar de existir
não vês que o homem de bem
é o mais cruel entre os deuses? e come
a todos nós os miseráveis
não m’arranque também o beijo que m’alimenta
a alma ou carne que o valha
eu não quero me proteger do teu cão
nem ver apanhar montenegrita
uma mulher linda
por estarmos nos desejando à pública luz do dia
por molharmo-nos desde os olhos
e fazermos exalar o cio de nossas partes mais primitivas
que bem conheces irmão
é também nossa a boceta de onde saíste
e é das nossas tetas que ainda te alimentas
então como também tua mãe eu devo
e vou a pedir
que olhes as tripas daquilo que tens construído no mundo
que te dissolvas com elas
e te esqueças de haver
que te distraias daquilo que chamas a tua pessoa
é preciso que morras irmão
a saber que jamais te odiamos
e celebra meu filho
a tua morte infinita