08.01.2015

miúra nós não sabemos
dramatizar co'esse mundo
as ruínas sobre as línguas
mas vai tudo bem
e dizer
só podemos dê-me o pão a bebida
e pagar
e comer
e beber afinal dizer boa noite
bom dia
quer dizer dê-me o pão
meu senhor a bebida
e pagar
miúra nos tire do mundo
mas está tudo bem
mas miúra não podemos
dizer mais que tudo
ou menos que isto
não podemos dizer que há coisas
mastigadas no pão
e que os braços
buscam tão longe
não o gesto
só a voz que não rasga
um farrapo qualquer
da história puída do mundo
a voz que o pão
não abraça
nem mastiga
mas bebe e miúra
nós vimos na saliva
tamanha linguagem
e no silêncio forjado
na maneira estúpida qu'inda temos
de mexer os braços
e pedir pelo pão a bebida pagar pelos braços
miúra essa vida
está tudo bem mas não há que podemos
dizer se vier-nos
deitar à cabeça
lembrança qualquer
do que é mesmo qu'existe
basta miúra
que façamos o gesto terrível
de comer
ou dizer e é pior
se dizemos
é pior se tentamos
gesticular
então vamos morrer nos teatros
ficar morrendo miúra e olhando
os olhos uma doutra
e ter preguiça
de tocar as ruínas
de compor um cancioneiro uma história do mundo qu'explique
a palavra isso
ou aquilo miúra
ou está tudo bem