08.01.2015

pro nícollas ranieri

aquele dia você dizia
ter lido
ferram-se casas
constroem-se cavalos
aceita-se troca
quer-se dizer
de fato
era com essas coisas que podíamos
nos preocupar
meu filho
há nomes pra tudo
você sabe
nunca foi disso que falamos
cuidamos da ideia ancestral
de que os objetos no mundo
dalgum jeito e num modo
sequer propício
sentem um certo alívio
quando não vamos falar
e quando não usamos
aquela preposição
que supõe
uma ideia de coisa
ou uma quantidade
a convenção dum número
ou da escala diatônica
essas escolhas que por qualquer acaso
vêm nos acometendo
e às vezes calhando
esquecê-las
você dizia
meu prédio vem vindo
é preciso entender
a pedra que soluça
é só com o que temos
de nos preocupar
um dia você se pegou soletrando va ga ro sa men te
seu nome
e não atendeu
nem soube dizer
se aquilo era aquilo
o mais importante
foi termos um filho
sem nome
e tivemos
sem nome
os antigos diziam
ser preciso escolher palavras
quando ainda se é bem jovem
e esgotá-las as roupas
puí-las
até quando for o dia de morrer
não sabemos se das palavras ou daquele que as diz
mas o vocabulário ideal dum homem
limita-se às partes de seu corpo
que por ventura e inevitavelmente
tendem a mudar
de nome
quando em contato com os ares
disso ou daquilo
especialmente das coisas
quanto às quais não devemos
cuidar
era só ter dito meu corpo de quantidade variavelmente suposta
não acorda nem dorme
meu corpo diz
como quem vacila a vontade
de ter corpo
era só ter dito meu corpo quer dizer cócoras
meu corpo quer dizer fábulas
meu corpo quer dizer cátedras
meu corpo quer dizer suponha
que seu nome
fosse um ruído mais lentamente
pronunciado
e que isso que diz ser o seu nome
em verdade
fosse nome
doutro corpo
um dia você se pegou pronunciando seu nome
esperando outro nome
atender
até hoje