14.10.2014

miúra olha minhas mãos
temos um amor grosso
com largura nosso sangue
corre e uns modos pequenos
de sentir dor
de pensar ao longo
c'uma gorda laranj'a
podrecendo nas mãos
miúra nós já passamos
todos aqueles diabos
que o mundo diz é preciso
dar cabo das coisas
ganhar viço
você diz er'aquela fome e o frio
e o calor um inferno
pass'ao largo balançand'as mãos
você sabe
dalgum modo estúpido e úmido
tudo se tem feito graça
aqui
que graça ter corpo
tomar porrada
mijar de manhã
nossos ossos teimosos
dormem mais que nós
miúra hoje vamos
deitar no chão mesmo
e tocar c'os mamilos
no piso gelado
e chorar de prazer
e de medo do gozo
e de culpa talvez
miúra me dá seus peitos
e vê minha testa franzida
e sente dó
esse mund'é tão grande
eu não sou ninguém