17.08.2014

mulher
em torço
a cabeça gira
precisamos comer

temos um bocado
nas mãos é pequeno
o tempo em que partilhamos
silêncio

hoje é
sempre foi
outro dia
amanhece mulher
precisamos comer

o dia se arrebenta os automóveis
os códigos inúteis da linguagem
se arrebentam
pra comer

mulher hoje a saudade
levou-me aos molhos
dum mar senfim de mil membros
batem-nos quaram-nos estamos
miúdas
precisamos comer

a hora de rir é tão grande
na varanda gelada o meu peito
mordia sua mão
não teríamos casa tão limpa
quanto aquele lugar
somos pobres
pequeninhas

a hora de te ver
de ter te visto
que horas agora

tão longe
sua morada
telefonar é difícl
haver hora é difícil
viver
precisamos comer

optaremos então certamente mulher
pelo trabalho das mãos
de comer com as mãos
e com elas tecer
e com elas correremos uma maratona
para cegos
que somos
amor
não há alimento no mundo
não há alimento no mundo
não há
escuta
as tuas mãos
seguram a hora
de morrer

você diz
tanto e ama
o que diz mulher
não mastiga
é calhau