18.01.2015

agora nós nos amamos
o sol grosso nas cigarreiras
amolece a vida dos homens
e o trabalho
(gordurosas horas)
se confunde cos braços

agora nos dizemos vem elleninha
me faz umas três meninas
já me pôs lombriga feijão na barriga
que custa m'embuchar duns mais

eu sei o mundo está cheio
de ruídos sem mãos
mas é tarde
pra dizer ao outro

que quando anoitece vazias
cremos também no silêncio
temos calor
respiramos

na verdade a idade
elleninha em qu'estamos
tem o cheiro antigo das mães
e já não é muito que queremos
da vida

um pouco d’água em seu lado
e qualquer medo forasteiro
vez ou outra vir à casa
nos distrair

e já nem procuramos
a palavra que toa
com o sol fatigado
dos nossos trabalhos

a palavra que toa
c'os pobres que bebem
sob as cigarreiras
que riem magros

a palavra que toa
co'a estúpida tarde
que deixou roubarmos
no supermercado

a palavra que toa
co'a infante manhã
a pedir que comamos
que mais hoje comamos

a palavra por fim que toa
co'a impressão infinita
de estarmos todos
já condenados
e estarmos todos
já perdoados

e estarmos ferro
e estarmos cana
e estarmos pedra
e estarmos lassos

e de estarmos salvos
elleninha

porque danados

elleninha são só três meninas
e seremos pra elas
nossos quatro seios
donde vão sugar

e há mais mulher
temos braços