carta pública a gilberto gil


gil, é muito doido experimentar sua escuta, com muita timidez, bem aqui enquanto escrevo. ao mesmo tempo, que experiência de diálogo absurda! não sei como não fiz isso antes. estou ouvindo ‘dois mil e um’ agora. 

rapaz, que medo eu andei sentindo. primeiro eu falo de um medo bastante pessoal – ou egoísta, se tudo for mesmo pessoal nessa vida. como diz uma amiga, eu estava evaporando. perdi muitos quilos nesse processo que muita gente tem passado de se perder do corpo para além de uma suposta divisa entre ele e a mente – que seja.

quantas vozes ecoando: eu preciso aprender a só ser.

daí você imagina... além do afeto das pessoas, o que mais vai trazendo o sopro de volta pra dentro do corpo – do mundo – é a música mesmo. tudo que é música, o que dizem que é música e o que dizem que não é. eu acho que a música existe e todo ruído a compõe. de todo modo, tenho ficado mais na sua.

agora falo de um medo menos egoísta – porque não dá pra dizer que é menos pessoal, parece. aquela mesma amiga diz coisas que me levam a pensar que quando terminarmos de esvaziar todos os símbolos de sua materialidade, então será o fim. eu não sou pessimista, mas se eu fosse eu teria certeza de que chegaríamos lá.

quantas vozes ecoando: o sonho acabou, transformando o sangue do cordeiro em água.

daí você imagina... e se todo o nosso povo se poupasse da burocratização da teoria e da teorização da burocracia e da preguiça que a gente tem de olhar um pro outro bem na cara e dizer sim, se a gente se poupasse da tristeza da fala sem boca e da escuta sem orelhas, se a gente se poupasse do medo de molhar os olhos nos olhos uns dos outros, se a gente se poupasse de mais um monte de eteceteras e fosse ficando mais assim na sua – na sua mesmo, ouvindo suas coisas. e também outras coisas, por contaminação.


quantas vozes ecoando: louvando o que bem merece, deixo o que é ruim de lado.

daí você imagina... em vez do drama anoréxico da filosofia / a vivência cibernético-tropical de nossas próximas gerações, de corpos cheios de carne e ritmo e voz. como eu não sou pessimista, acho que se pararmos de negligenciar a música nós podemos chegar lá.

bom, gil, eu só queria dizer essas coisas mesmo. e até sugiro às pessoas que façam isso. é muito bom. um abraço muito forte em você!
 
carolina / agosto de 2017.